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O Mundo Agora

EUA e Rússia ignoraram a comunidade internacional em decisão sobre crise síria

Áudio 05:11
A comissão investigadora da ONU para a Síria revelou que investiga um total de 14 denúncias de ataques com armas químicas
A comissão investigadora da ONU para a Síria revelou que investiga um total de 14 denúncias de ataques com armas químicas ONU
Por: Alfredo Valladão
11 min

Em sua crônica de política internacional, O Mundo Agora, o professor do Instituto de Estudos Políticos de Paris, Alfredo Valladão, analisa a decisão russo-americana de não intervir militarmente na Síria. Segundo ele, as duas potências, rivais durante a guerra fria, ignoraram a comunidade internacional e o "multilateralismo" e optaram pela chamada "realpolítica".  

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Muita gente suspirou aliviada com acordo russo-americano sobre as armas químicas da Síria. Finalmente, proclama a vox populi, o mundo está voltando para o multilateralismo e para o direito internacional no quadro das Nações Unidas. A paz tem uma chance. As grandes potências, Washington em particular, estariam abandonando o unilateralismo que imperou durante era Bush. Tudo isso é muito bonito e alvissareiro, mas é um ledo engano.

Para começo de conversa, trata-se de um acordo bilateral entre a maior potência mundial e uma ex-potência mundial que conserva uma capacidade de criar problemas no âmbito regional. A negociação entre o Washington e Moscou não tinha nada a ver com o multilateralismo, mas, sim, com os interesses diretos dos dois protagonistas. Os americanos não associaram nem consultaram os seus principais aliados nessa pendenga. A França, que tinha tomada posições claras a favor de uma ação militar “punitiva” contra Bachar Al-Assad, ficou pendurada na brocha. A Rússia também não se dignou a dar satisfações a ninguém.

As Nações Unidas e a legalidade internacional só entram nisso como meros instrumentos para tentar operacionalizar os termos do acordo bilateral. Aliás, tanto a Rússia quanto os Estados Unidos nunca hesitaram em apelar para a força de maneira unilateral. Se Bush invadiu o Iraque sem pedir licença a ninguém, Putin fez a mesma coisa na Geórgia. Sem falar nos hediondos crimes de guerra russos cometidos durante o levante na Chechênia onde foram massacradas mais de 200.000 pessoas sem que a famosa “comunidade internacional” amante da paz e da legalidade tenha feito mais do que uma boquinha de desgosto.

Na verdade, esse arranjo russo-americano, que abandona a sua própria sorte os milhões de refugiados sírios e passa por cima da pilha de cadáveres mortos por armas bem convencionais utilizadas maciçamente pelo regime de Damasco, pode ser o primeiro sinal do desmantelamento do sistema multilateral. Estamos voltando para antiga e sempre presente “realpolítica”, onde quem manda é quem tem cacife. O respeito à Carta dos Direitos Humanos da ONU, a obrigação de acatar o princípio da “responsabilidade de proteger” votado pela Assembleia Geral, a necessária resolução do Conselho de Segurança, tudo isso foi sacrificado no jogo entre Moscou e Washington.

Mas isso não quer dizer que estamos voltando para a Guerra Fria ou para um mundo bipolar. A Rússia está num estado tão lamentável que Putin não tem condições de brincar de poder global. Hoje, o fato de possuir a arma atômica não é mais aquele trunfo de cinquenta anos atrás. O que conta é o poderio econômico e a capacidade de projeção de forças convencionais. E a Rússia hoje, está muito longe disso. Na verdade, Putin fez tudo para evitar uma ação militar americana, inclusive aceitando reconhecer que Bachar Al-Assad tinha estoques enormes de armas químicas, porque não tinha a mínima capacidade para reagir ou se opor. Um ataque americano teria demonstrado a impotência do Kremlin.

Quanto à Obama, o Oriente Médio não é mais uma prioridade, muito pelo contrário. O presidente americano quer sair rapidamente desse saco de gatos para se concentrar na Ásia onde os interesses americanos são cada vez maiores e administrar a emergência da China. Além do mais, com o boom do gás de xisto, os Estados Unidos estão se tornando cada vez mais independentes do petróleo médio-oriental. Se a jogada com o Putin sobre a Síria puder ser aproveitada para também resolver a questão do programa nuclear iraniano com a ajuda dos russos, melhor ainda. E isso tudo sem dar a menor bola para o resto da dita comunidade internacional. Aliás, Obama deixou bem claro que se o acordo não funcionasse, ele poderia retomar a opção militar de maneira unilateral.

Esses sinais de que o multilateralismo onusiano não vai lá muito bem também existem na área econômica. As negociações lançadas pelos americanos para concretizar dois mega-acordos de livre-comércio, um com os países do Pacífico (fora a China) e outro com a Europa, criam uma situação que ameaça tornar obsoleta a Organização Mundial do Comércio. Pelo visto, os Estados Unidos, que continuam sendo, e de longe, a maior potência do planeta, estão priorizando as coalizões ad hoc de Estados, diferentes em função dos problemas a serem tratados. É a nova maneira de administrar o mundo: deixar rolar as crises, só se meter quando os seus interesses específicos estão em jogo e contar com aliados circunstanciais para fazer o trabalho sujo. O problema num mundo onde a competição e o egoísmo nacional se sobrepõem à cooperação é que quem manda são os fortes, os outros se transformam em meros espectadores ou vítimas. Quem pode pode, quem não pode se sacode.
 

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