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O Mundo Agora

Para analista, democracias modernas estão em pane

Áudio 05:07
Estátuas de figuras femininas representando o Luto e a História diante do Capitólio, sede do Congresso americano.
Estátuas de figuras femininas representando o Luto e a História diante do Capitólio, sede do Congresso americano. Reuters
Por: Alfredo Valladão
10 min

A democracia vai mal. Muito mal mesmo. E o paradoxo é que nunca houve tantos Estados democráticos no mundo, ao menos formalmente. O fim da Guerra Fria com o seu maniqueísmo ideológico abriu o caminho para a instituição de regimes democráticos na América Latina, na Europa central e do Leste e até em alguns países da Ásia e da África. A primavera árabe parecia ter empurrado o mundo árabe na mesma direção. Só que basta ler qualquer noticiário para constatar que não é bem assim. Pior ainda: até na velha Europa e na América do Norte a democracia parece cada vez mais emperrada, com um funcionamento dia a dia mais caótico.Clique em "Ouvir" para conferir a crônica de política internacional de Alfredo Valladão, professor do Instituto de Estudos Políticos de Paris.

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O fenômeno tem várias dimensões. A mais inquietadora não é uma recaída na ditadura e no autoritarismo aberto e escrachado. O que é mais pernicioso é a utilização das eleições e dos processos democráticos formais para justamente cercear a democracia e a liberdade dos cidadãos.

Putin na Rússia, Viktor Orban na Hungria, Recep Erdogan na Turquia, os bolivarianos venezuelanos ou o nicaragüense Daniel Ortega partem todos do princípio que só pelo fato de terem vencido eleições isto lhes dá o direito de fazer o que quiserem com a Constituição, as instituições e qualquer tipo de oposição em geral. Qualquer crítica ou reclamação é tratada como um tentativa de golpe contra o governo.

Todos recorrem a formas sutis e menos sutis de censura aos meios de comunicação e de manipulação do voto. Todos utilizam as instituições judiciárias como arma política contra os adversários e decretam legislações eleitorais feitas sob medida para permanecerem eternamente no poder. E todos denunciam a defesa da liberdade de expressão e dos direitos humanos como se fossem um atentado contra a soberania nacional e uma conspiração para alijá-los do poder. Tudo isso em nome da certeza arrogante, quase divina, de serem os únicos representantes dos anseios e interesses de suas populações.

Usar a democracia para desmantelar a democracia é a forma mais perversa do autoritarismo moderno. O problema é que não é o único perigo. Hoje, até as antigas democracias estão se destruindo a si próprias. A gravíssima crise de governo provocada por Silvio Berlusconi na Itália só para tentar salvar a própria pele depois de ter sido condenado por fraude fiscal é o melhor exemplo dessa tendência.

O “Cavaliere”, que usou e abusou do seu poder econômico e midiático para ocupar quatro vezes a Presidência do Conselho italiano nas últimas duas décadas, está simplesmente tomando como refém o governo e a economia do seu país por motivos puramente pessoais.

A atitude do Tea Party, o movimento da direita raivosa republicana nos Estados Unidos não é muito diferente. Os deputados republicanos mais extremistas, que ameaçam e apavoram até os seus companheiros de partido mais moderados, estão dispostos a fechar o governo dos Estados Unidos e até a criar uma crise mundial só para tentar liquidar a presidência de Barack Obama e sua lei sobre o seguro de saúde, já votada pelo Congresso, confirmada pela Corte Suprema e referendada pela reeleição folgada do presidente.

Na verdade, são sintomas ameaçadores. É como se todo o arcabouço democrático não fosse mais um instrumento para gerar consensos políticos e alternâncias pacíficas no poder. Como se agora estivéssemos entrando na era do vale tudo para conquistar e permanecer eternamente no poder, esmagando qualquer forma de opinião ou movimentos contrários.

Autoritarismo

O surgimento e o recente fortalecimento de partidos abertamente racistas, autoritários, violentos – e até nazistas como o “Aurora Dourada” grego – é outro sinal de que as instituições democráticas estão correndo perigo até na União Européia. É claro que esses fenômenos tem muita a ver com a crise econômica, o desemprego de massa e o desespero de populações inteiras que perderam esperança no futuro.

Mas há também razões mais profundas. Todos os governos nacionais estão rapidamente perdendo poder frente à globalização da economia, da informação, das redes de grupos e indivíduos cada vez mais poderosas. Hoje um governo é só uma espécie de administrador local de uma lógica cada vez mais global. Resultado: nem os eleitores, nem os próprios eleitos, acreditam que poder nacional possa realmente resolver os problemas econômicos e sociais mais importantes.

Os políticos confrontados com essa perda de poder descambam para a corrupção e a filosofia do “primeiro os meus”. Enquanto as populações têm cada vez mais ojeriza da política tradicional e são atraídas pelas soluções violentas e movimentos radicais reivindicando “purezas” ideológicas totalitárias. No final da Guerra Fria muitos achavam que a democracia seria o destino inevitável do mundo. Vinte anos depois, pode-se até questionar se ela ainda será capaz de sobreviver por muito tempo.

 

 

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