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O Mundo Agora

EUA não querem mais ser a polícia do planeta, diz analista

Áudio 04:34
A intervenção na Somália foi feita pelos Navy Seals, a elite da marinha americana. Treino das tropas na Virgínia, em julho de 2010.
A intervenção na Somália foi feita pelos Navy Seals, a elite da marinha americana. Treino das tropas na Virgínia, em julho de 2010. AFP PHOTO/US NAVY/Robert Fluegel/HANDOUT/
Por: Alfredo Valladão
10 min

Governo fechado pela impossibilidade de encontrar um consenso no Congresso, uma ameaça de moratória técnica na dívida externa do país, a interrupção das negociações comerciais com a Europa e com o Pacífico por falta de verbas, demonstrações claras de que não estão mais afim de aventuras militares: o que será que está acontecendo com os Estados Unidos, que aliás continuam sendo – e de longe – a maior potência mundial? Nos últimos setenta anos, desde a vitória do aliados contra o nazismo e o militarismo japonês, foram os Americanos que, por mal ou por bem, garantiram a segurança e os grandes equilíbrios do sistema internacional criado a partir de 1945. Se a ONU existe, se o multilateralismo ainda funciona aos trancos e barrancos, se as ameaças mais perigosas à vida das nações como o imperialismo comunista soviético ou o terrorismo globalizado foram encaradas de frente, e se a economia de mercado e a democracia continuam se expandindo no mundo, é porque Washington, queiramos ou não, teve o papel de fiador em última instância.Claro, tem muita gente que não gosta nada disso. Ninguém fica feliz de depender de um poderoso protetor e portanto de ter que engolir as besteiras ou arrogância do mesmo. “Beije a mão que você não pode morder” diz um provérbio árabe. “Yankee go home!”, continua sendo um slogan popular em muitas partes do planeta. E se os Americanos decidirem voltar para a casa para valer? Quem vai segurar a peteca do sistema internacional? A quase totalidade dos Estados do planeta não tem nenhuma capacidade econômica ou militar para garantir o respeito mínimo das regras básicas da convivência internacional. Os mais remediados, como a China, a Rússia, o Brasil, a França, a Alemanha, o Reino Unido ou o Japão não tem nenhuma vontade de pagar o preço – altíssimo – que este papel exige. Quanto a idéia de que será o conjunto da “comunidade internacional” que resolverá esse problema, isso não passa de sonho numa noite de verão. Basta olhar para os G-20 da vida para entender que na hora do “vamos-ver” o que vale mesmo é protelar ao infinito. Além do mais, quando se trata de utilização legítima da força contra aqueles que recusam qualquer lei internacional, nunca se viu dar certo uma guerra conduzida por um comitê de Estados. Sobretudo se esses Estados não possuem meios militares adequados ou vontade de se arriscar.Portanto, o novo “isolacionismo”, cada vez mais perceptível na opinião pública americana cansada de guerra e de responsabilidades internacionais, é um fenômeno inquietante. Com os americanos ativos uma ordem global básica é mantida com muitos erros e muitas tragédias e injustiças. Winston Churchill sempre dizia que os americanos acabavam sempre por fazer a coisa certa, mas só depois de terem tentado todas as outras alternativas. Só que hoje sem os Estados Unidos, e sem ninguém com os meios e tutano para assumir a responsabilidade, o sistema internacional estará condenado ao caos. E caos significa que os mais brutais, os mais sem escrúpulos e mais poderosos esmagarão os outros. Sem polícia não há mais lei.Por enquanto ainda não chegamos nesse ponto. Washington não decidiu fechar a porta da casa e engolir a chave. Mas o último discurso do presidente Obama depois do acordo com os Russos sobre o problema sírio evidenciou a nova atitude dos americanos. Doravante eles não assumiram mais o papel de polícia do planeta intervindo cada vez que houver um conflito ou uma violação massiça dos direitos humanos. Obama deixou claro que Washington continuará atuante nos assuntos mundiais, mas só para defender pontos realmente estratégicos: quando os interesses americanos forem diretamente ameaçados ou quando houver perigo sistêmico, isto é ameaças a tudo que possa colocar em risco o funcionamento da economia global e dos grandes equilíbrios políticos internacionais. Os Estados Unidos sempre intervirão para proteger o mercado de energia global, resolver um conflito local que possa ter repercussões globais (caso do Irã e da tensão sino-japonesa) ou para lutar contra o terrorismo (como acaba de acontecer com as ações de forças especiais na Líbia e na Somália). E claro, sempre que for preciso para manter a preponderância americana e defender seus interesses nacionais diretos. Quanto ao resto, guerras e massacres locais, ou crises econômicas e políticas localizadas, que os outros se virem! Washington está satisfeitíssimo de passar essa responsabilidade para aliados ou amigos locais. O Tio Sam não vai mais mandar a cavalaria se as coisas não derem certo. Ora, como a cavalaria da ONU não existe e que muitos governos locais podem ser infinitamente mais brutais do que os ianques, o futuro da paz e do respeito aos direitos humanos não é bem alvissareiro. Clique acima para ouvir a crônica de política internacional de Alfredo Valladão, professor do Instituto de Estudos Politicos de Paris; 

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