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O Mundo Agora

Há dois futuros possíveis para o pré-sal brasileiro

Áudio 05:23
Primeira plataforma 100% brasileira, a P-51 pode produzir até 180 mil barris de petróleo e 6 milhões de metros cúbicos de gás por dia quando estiver operando em plena carga.
Primeira plataforma 100% brasileira, a P-51 pode produzir até 180 mil barris de petróleo e 6 milhões de metros cúbicos de gás por dia quando estiver operando em plena carga. Wikipédia
Por: Alfredo Valladão
10 min

Enquanto a licitação das imensas reservas do pré-sal brasileiro está sendo esnobada pelas grandes companhias petrolíferas internacionais, o mundo está vivendo uma verdadeira revolução no campo da energia. Durante todo o século XX, o petróleo, junto com o velho carvão, alimentou o maior período de crescimento econômico da história da humanidade. A dominação do Império britânico no século XIX fundamentava-se no carvão, abundante na Inglaterra.

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O poder dos Estados Unidos no século seguinte tem muito a ver com o fato de que o território americano era – e ainda é – riquíssimo em petróleo. Hoje, a produção e consumo dos hidrocarbonetos continuam sendo um elementos essenciais da geopolítica mundial. Só que hoje, com os problemas de meio-ambiente e a produção e o consumo de massa chegando às gigantescas populações asiáticas – e daqui a pouco africanas – é difícil imaginar que a farra petroleira dos últimos decênios possa continuar se sustentando. Como também não vão se sustentar as posições de poder dos países produtores. O que está em jogo hoje, é a própria geografia energética do mundo.

A primeira novidade é o aparecimento das energias renováveis a preços cada vez mais competitivos. Por enquanto, os biocarburantes, o solar ou o eólico, não podem ser considerados alternativas viáveis. Mas elas começam, lentamente, a reduzir a demanda de petróleo nos países que levam essa via mais a sério. Mais importante, porém, é a utilização da força da economia digital para promover tecnologias e sistemas para diminuir o consumo de energia: sistemas de transmissão e distribuição “inteligentes” de eletricidade, edifícios energeticamente autônomos, carros manejados automaticamente e racionalização do tráfego, novas tecnologias de motores...

As economias de energia podem se transformar numa espécie de Santo Graal do século XXI. O problema é que elas só poderão realmente ser aproveitadas por países com uma infra-estrutura sofisticada, níveis de educação altos, centros de pesquisa e desenvolvimento de ponta, muita liberdade criativa, segurança jurídica e um mercado de capitais poderoso que favoreça a inovação. Mais uma vez, os principais beneficiários da nova revolução vão ser a América do Norte e a Europa – e quem sabe o Japão, se conseguir finalmente por a casa em ordem.

Essa nova geografia energética também está levando de roldão o próprio mercado dos hidrocarbonetos. O desenvolvimento do gás e petróleo de xisto nos Estados Unidos está redistribuindo todas as cartas dos produtores do planeta. Dentro de 10 ou 15 anos, os americanos deverão importar quantidades mínimas de petróleo e até poderão, já nos próximos anos, exportar gás liquefeito sobretudo para a Europa. Quando o maior mercado consumidor do planeta (que, aliás, está sendo ultrapassado pela China) desaparece do mapa, o impacto nos países produtores só pode ser imenso.

A OPEP, o poderoso cartel de produtores de petróleo, é só uma sombra do passado. Hoje quem manda dentro do organismo são as quatro monarquias do Golfo – Arábia Saudita, Qatar, Kuwait e Emirados – que definem os preços e quantidades disponíveis para os mercados. Todos os outros membros foram obrigados a reduzir a própria produção para manter o nível de preços. Outro grande país produtor, cada vez mais apavorado com a nova situação, é a Rússia. Moscou morre de medo de que os Europeus não só acabem consumindo menos gás – que é o principal produto de exportação russo – mas que também comecem a comprar gás dos Estados Unidos ou dos campos da África atlântica.

Resultado dessa nova geografia: os velhos países ocidentais têm condições de ser menos dependentes dos países exportadores, enquanto que os grandes emergentes como a Índia e a China se tornam cada vez mais prisioneiros do fornecimento de petróleo vindo das monarquias do Golfo, cuja segurança numa região super instável depende da forte presença militar americana.

Com o gás de xisto que diminui as importações, combinado com a importância cada dia maior do Golfo, é como se os Estados Unidos estivessem com a mão na torneira das fontes de energia para a Ásia emergente, sobretudo a China. Não é por acaso que as companhias petroleiras chinesas ou indianas estão desesperadamente tentando encontrar produtores alternativos na África ou na América Latina com um objetivo claramente neo-colonialista: ganhar contratos de exploração para levar o petróleo dos outros para casa sem deixar nenhum ganho tecnológico ou de infra-estrutura significativo.

O pré-sal brasileiro tem dois futuros possíveis. Um é ser parte de um grande esquema de cooperação energética com a Europa, os Estados Unidos e outros Estados atlânticos, tornando-se assim um elemento importantíssimo da nova revolução energética. Ou então continuar sendo vendido como matéria prima para chineses e indianos, como sempre desde Pedro Álvares Cabral.
 

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