Linha Direta

Eleições legislativas na Argentina "sepultam o kirchnerismo"

Áudio 04:32
A presidente da Argentina, Cristina Kirchner
A presidente da Argentina, Cristina Kirchner REUTERS/Argentine Presidency/Handout via Reuters

Os argentinos vão às urnas neste domingo para renovar parcialmente o Congresso: metade da Câmara de Deputados e um terço do Senado. Mas, embora as eleições sejam apenas legislativas, marcam o novo mapa eleitoral do país e definem os dois anos de mandato que restam à presidente Cristina Kirchner. A presidente anda ausente do cenário eleitoral devido ao repouso de 30 dias recomendado pelos médicos depois da cirurgia para retirar uma hematoma do crânio. O correspondente em Buenos Aires, Márcio Rezende, analisa o cenário político argentino.

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Segundo ele, as eleições inauguram um novo ciclo político na Argentina e sepultam o do kirchnerismo, depois de 10 anos governando o país. Cristina tinha o objetivo de ganhar as eleições e somar mais legisladores para modificar a Constituição e habilitar um terceiro mandato consecutivo, hoje proibido.

Mas o que deve sair das urnas no domingo é a pior derrota do governo em 10 anos desde que o falecido ex-presidente Néstor Kirchner chegou ao poder em 2003 e a sua esposa continuou em 2007. A derrota deve marcar o fim de um ciclo político na Argentina e alterar tudo daqui para frente.

Portanto as eleições são legislativas, mas têm peso de plebiscito. E, nesse plebiscito, os argentinos devem dizer que todo poder tem limite e o de Cristina Kirchner chegou ao seu, sem chances agora de uma reeleição e já sem o apoio do Parlamento para qualquer medida.
 

No dia 11 de agosto, as eleições primárias definiram uma derrota para os candidatos oficialistas, que não obtiveram mais do que 26% dos votos somados em todo o país. Na província de Buenos Aires, ponto eleitoral nevrálgico porque concentra quase 40% dos eleitores, o candidato de Cristina Kirchner, Martín Insaurralde perdeu para Sergio Massa por 5 pontos de diferença. As pesquisas indicavam que essa diferença aumentava até 11 pontos, até que Cristina Kirchner foi internada para retirar um hematoma no crânio.

Por compaixão, a imagem positiva dela aumentou 10 pontos, de 30 a 40%. Mas isso não necessariamente se derramou a favor dos seus candidatos. A diferença na província de Buenos Aires está hoje em cerca de 8 pontos a favor da oposição. Além disso, nas cinco maiores províncias do país, o governo perde feio em todas.
Derrota não termina com o resultado de domingo

O peronismo, ao qual Cristina Kirchner pertence, costuma apostar no ganhador. Ao longo dos próximos meses, vamos ver legisladores, prefeitos e governadores migrando para onde o poder estiver. Ou seja: para quem tiver mais chance de ser o próximo presidente. A sangria de apoio e a fuga de aliados vai limitar ainda mais a ação de Cristina Kirchner.

Ela terá de negociar para governar, terá de ceder e terá de corrigir o rumo, algo que não fica claro como será. A Argentina convive com uma série de problemas graves na economia e que têm sido comprimidos à espera de uma definição política. Essa espera tem diminuído a margem de manobra para a correção desses problemas. A dúvida agora é como Cristina Kirchner vai encarar essa provável derrota e qual estratégia terá para enfrentar esses problemas.

Inflação galopante, falta de dólares, restrições cambiais, fuga de capitais, queda acentuada das reservas do Banco Central, uma rede de subsídios gigantesca para cada vez menos dinheiro disponível e falta de fontes de financiamento.

A presidente tem duas saídas: ou assimila a derrota e negocia medidas e soluções para começar a desativar a bomba de problemas econômicos nesses dois anos que lhe restam ou tenta empurrar com a barriga para que a bomba exploda na mão do próximo presidente. Qualquer uma das duas alternativas deve levar à tensão política e a um mal humor social.

Convalescença 

No domingo, Cristina Kirchner não precisará explicar ou admitir a derrota. Ela vai continuar de repouso por mais duas semanas aproximadamente. A dúvida é se algumas medidas impopulares serão adotadas já nesse período para evitar que ela mesma se exponha ou se o país terá de esperar pelo retorno dela.

Desde o dia 8 de outubro, quando foi operada, o país está no piloto automático. Ninguém sabe quem governa a Argentina. Acreditava-se que ela governava da cama mesmo, mas, depois de um acidente ferroviário nesta semana que deixou uma centena de feridos, o ministro dos transportes disse que ela não soube do acidente e que é poupada das notícias.

O vice-presidente em exercício da Presidência, Amado Boudou, é apenas uma fachada: não manda nem governa. Tem a pior imagem política no país e seis denúncias de tráfico de influência e enriquecimento ilícito.
A convalescença de Cristina Kirchner somou votos aos seus candidatos por um efeito compaixão? Os analistas dizem que não. O acidente ferroviário e a imagem do vice-presidente prejudicaram ainda mais o governo? É isso o que vamos ver no domingo.

E a partir de agora todos os olhos estarão postos também na saúde da presidente, que foi operada de um hematoma no crânio num hospital especializado em doenças cardíacas, e já se trabalha com a hipótese de que o problema de saúde dela seja mais grave e seja necessário até colocar um marcapasso.
 

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