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O Mundo Agora

Informação é poder e quem tem poder faz tudo para obter informações

Áudio 05:36
Antenas suspeitas no teto da Embaixada Americana em Berlim, em foto do dia 27 de outubro de 2013.
Antenas suspeitas no teto da Embaixada Americana em Berlim, em foto do dia 27 de outubro de 2013. REUTERS/Fabrizio Bensch
Por: Alfredo Valladão
11 min

A Agência Nacional de Segurança dos Estados Unidos (a NSA) que vem espionando líderes e cidadãos de meio mundo cometeu um erro imperdoável: foi pega com o mão na botija. “Coisas acontecem”, dizia o antigo secretário da Defesa americano Donald Rumsfeld. Não tem dúvida: no mundo dos James Bond, quando um agente “cai” – e isso às vezes acontece – as autoridades do seu país de origem fingem não conhecer o infeliz e esperam alguns anos para poder trocá-lo por um agente queimado do adversário. Só que desta vez é o mais poderoso serviço de espionagem do mundo que “caiu”. E não há maquilagem que esconda este pé na jaca.  

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Todos os governos grampeados são obrigados a reclamar, convocar o embaixador americano e pedir medidas de moralização universal, porém, toda esta indignação é bem mais para consumo interno, para acalmar a imprensa nacional e as respectivas opiniões públicas. Enquanto isso os serviços de inteligência destes mesmos governos estão cada vez mais nervosos com essa verdadeira campanha de revelações, demasiadamente bem destilada e organizada. É muita areia para o caminhãozinho de um simples indivíduo idealista. E depois dos americanos, será que as denúncias também vão envolver os espiões alemães, franceses, ingleses ou até brasileiros?

Desde sempre, todos os grandes Estados do mundo, sem falar nas grandes empresas, espionam-se uns aos outros e se possível até o mais alto nível. Informação é poder e quem tem poder faz tudo para obter informações e usar a contrainformação como arma. Nesse mundinho da espionagem ninguém é inocente. Quem será que está atrás do menino Snowden?

Uma coisa é estranha: todas as denúncias deste tipo nos últimos tempos só prejudicam os “serviços” dos países ocidentais. As imensas e eficientes redes de espionagem russa, chinesa ou cubana nunca estão na berlinda. Ou bem tudo isso é uma homenagem às sociedades democráticas onde é muito mais fácil conseguir informações comprometedoras sobre os próprios serviços de inteligência, ou então tem muito gato nesse churrasquinho.

Verdade seja dita, se todo mundo usa e abusa da espionagem, a NSA passou muito além da Taprobana. Tendo meios ilimitados e a mais moderna tecnologia do planeta, ela simplesmente decidiu utilizar tudo isso ao máximo ignorando qualquer tipo de regras e obstáculo legais. E quem sabe, até passando por cima da própria Casa Branca. O escândalo terá portanto o seu lado positivo se os arapongas do mundo ocidental forem mais bem controlados pelos respectivos líderes civis. Claro, os países autoritários e tão bisbilhoteiros quanto os outros não têm tanto esse problema.
Só que este episódio esquisito, com toda a hipocrisia geral em volta, é só a manifestação de um fenômeno contemporâneo que vai muito além da simples espionagem estatal.

O problema central é o da privacidade. Mas pelo visto, com as novas tecnologias da comunicação, a privacidade está é acabando.

Não são só as grandes companhias como a Google, a Amazon, a Apple e todos os seus congêneres – grandes e pequenos – no mundo inteiro que coletam e utilizam dados pessoais dos seus utilizadores, quase seguindo passo a passo a nossa vida e hábitos cotidianos. Somos também nós mesmos, sobretudo a juventude de todos os países do planeta que estão vidrados nos e-mails, nos twitters, no Facebook ou no Orkut. Jovens que passam horas todos os dias contando minuciosamente para a rede global tudo o que estão fazendo, em tempo real. Inclusive tirando fotos uns dos outros, às vezes nas situações mais esdrúxulas e embaraçosas. E tudo isso numa boa!

É como se a nossa civilização hiperconectada, hipercontrolada pelas câmaras de vídeo e toda a parafernália dos códigos de reconhecimento de voz, de íris e de impressões digitais, tivesse decidido abandonar qualquer intimidade para viver na transparência absoluta. Com toda a exaltação e todos os graves perigos que isso acarreta.

Nesse mundo de vidas escancaradas onde são as próprias pessoas, cada indivíduo, que resolveram viver nus numa realidade virtual, o atentado à privacidade perpetrado pelas agências de espionagem é uma brincadeira de criança. Ou melhor: só interessa os próprios espiões e políticos que brincam de jogos estratégicos.

Defender a privacidade hoje é ir contra a corrente do tsunami da tecnologia da informação e comunicação que já transformou o mundo, a sociedade e os indivíduos de maneira profunda. Mas o que será um mundo de onde a intimidade terá desaparecido? Para os da velha guarda, dos tempos onde o íntimo existia, é uma perspectiva intolerável. Para os da jovem guarda, que de qualquer maneira acabarão enterrando os velhos, essa realidade já é o mundo deles, o mundo onde o Big Brother é “normal”.

 

 

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