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O Mundo Agora

Abertura de diálogo entre EUA e Irã preocupa Arábia Saudita

Áudio 05:43
O secretário de estado americano John Kerry (à esq.) e o príncipe  Saoud al-Fayçal durante entrevista coletiva.
O secretário de estado americano John Kerry (à esq.) e o príncipe Saoud al-Fayçal durante entrevista coletiva. REUTERS/Jason Reed
Por: Alfredo Valladão
11 min

O chefe da diplomacia dos Estados Unidos, John Kerry, se abalou para a Arábia Saudita para botar panos quentes na péssima relação entre os dois países. E bota pano nisso! A monarquia saudita está tiririca com o aliado americano e resolveu demonstrar o mau humor de maneira espetacular recusando-se a assumir a cadeira que lhe foi atribuída no Conselho de Segurança da ONU. A aliança celebrada em 1945 entre Franklin Roosevelt e o rei El-Saud já passou por altos e baixos. Momento alto foi a colaboração dos dois países para ajudar os mujahidins afegãos a expulsar as tropas de ocupação soviéticas.

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Um tiro certeiro que acabou saindo pela culatra com o surgimento da Al Qaeda que também se beneficiou da ajuda. Um dos piores foram os atentados do 11 de setembro de 2001 perpetrados por terroristas financiados com dinheiro de figurões sauditas. Mas no frigir dos ovos adotou-se a ficção de que o regime não tinha condições de prever e enquadrar o comportamento de alguns ricaços antiamericanos com conexões até dentro da família real. Só que a coisa ficou entalada na garganta do Tio Sam e pelo visto o revide vem aí.

O pacto de 1945 era simplíssimo. A Arábia Saudita assegurava o suprimento de petróleo para os Estados Unidos e em contrapartida, a potência americana garantia a segurança da família Saud no poder, a da própria Arábia Saudita e a de seus vizinhos árabes. Esse trato continua funcionando a todo vapor, mas as primaveras árabes, a retirada das tropas americanas do Iraque e do Afeganistão e as descobertas de gás e óleo de xisto nos Estados Unidos estão criando atritos sérios.

Apesar da profunda hostilidade de Riad à ditadura de Saddam Hussein no Iraque, os sauditas não estão nada felizes com o resultado da empreitada americana. Bagdá, que estava em mãos sunitas, passou sob controle de um regime xiita que rapidamente estreitou seus laços com o Irã, inimigo figadal dos Saud. A segunda decepção foi no Egito. O Cairo do governo autoritário de Hosni Mubarak era um aliado chave de Riad contra as ambições regionais iranianas.

O apoio americano aos revoltosos egípcios e depois ao governo de Mohamed Morsi controlado pela Irmandade Muçulmana foi percebido como uma falta de consideração. O sunismo wahabita rigorista dos sauditas considera o sunismo mais moderado da Irmandade como um perigoso concorrente. Sobretudo se ele pode contar com a força e o prestígio de estar no poder no Cairo, verdadeiro centro do Islã árabe.

Aliás, antes de ser destituído, Morsi havia tentado uma aproximação com Teerã, por cima da cabeça dos Saud. E Riad não gostou nem um pouco que Washington tenha criticado o golpe militar que acabou com a festa dos Irmãos Muçulmanos egípcios.

Mas a gota d’água foi a Síria. Os dirigentes sauditas apoiaram desde o início a resistência síria contra o regime sanguinário de Bachar El-Assad, aliado fundamental do Irã no Oriente Próximo. A queda de Assad, substituído por um regime sunita vinculado à Arábia Saudita, seria um golpe fatal à expansão hegemônica dos iranianos na região.

Só que os americanos, depois de terem dado luz verde à ajuda militar saudita aos revoltosos sírios e de terem pedido publicamente uma mudança de regime em Damasco, tiraram o corpo fora. Washington agora não tem o mínimo interesse em promover a tomada de poder na Síria por fundamentalistas islâmicos financiados pelos saudita. Riad ficou pendurado na broxa.

Mas do ponto de vista saudita o pior estava por vir. A abertura de um diálogo sério entre Washington e Teerã sobre o programa nuclear iraniano é visto quase como uma traição. Considerar Bachar Al-Assad como um interlocutor internacional legítimo já foi um verdadeiro presente para os aiatolás iranianos. Mas uma reaproximação, junto com um acordo, entre americanos e iranianos seria reconhecer o papel do Irã como grande potência regional.

Claro ainda não chegamos a isso. Mas os sauditas estão evidentemente nervosos com essa perspectiva, sobretudo que o Irã sempre demonstrou o maior desprezo pelas monarquias do Golfo e de vez em quando não deixa de apoiar as revoltas das minorias xiitas contra os governos sunitas da região. O pesadelo da casa de Saud é que os Estados Unidos, cada vez mais autossuficientes em matéria de petróleo e gás, possam simplesmente atropelar os interesses sauditas.

E sem um grande protetor a sobrevivência da casa de Saud pode se tornar problemática. Mas Riad possui uma arma de destruição em massa: o talão de cheques. Com essa dinheirama toda, a Arábia Saudita ainda pode criar muita confusão para o seu Tio Sam protetor.

Clique acima para ouvir a crônica de política internacional de Alfredo Valladão, do Instituto de Estudos Políticos de Paris

 

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