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O Mundo Agora

Ocidentais abandonam o Oriente Médio no caos, diz analista

Áudio 05:31
Atentado próximo a embaixada do Irã no bairro Bir Hassan, no sul de Beirute, Líbano.
Atentado próximo a embaixada do Irã no bairro Bir Hassan, no sul de Beirute, Líbano.
Por: Alfredo Valladão
11 min

Atentados terroristas quase quotidianos no Iraque, milícias armadas se enfrentando nas cidades líbias, massacres inter-comunitários na Síria: países inteiros estão se fragmentando em grupos políticos, ideológicos, confessionais ou simplesmente clânicos, tribais e regionais. Os governos centrais não tem mais nem legitimidade nem meios para impor a ordem ou tentar um projeto de nação. A intervenção americana no Iraque e a queda de Saddam Hussein, há dez anos, abriu o caminho para as revoltas da “primavera árabe” mostrando para as populações da região que os seus ditadores de sempre não eram eternos. E que o poderoso Ocidente não estava mais disposto a sustentá-los a qualquer custo por razões de Realpolítica. A queda de Kadafi deu asas aos revolucionários da região.

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Só que o sonho de construir democracias imediatas era um ledo engano. E não só porque os processos democráticos, por definição, precisam de muito tempo para nascer e se consolidar. O grave equívoco foi contar com a constância do apoio ocidental.

Europeus e Americanos, confrontados com o surgimento previsível dos partidos e grupos islâmicos reprimidos durante décadas, e com a confusão e a violência dos processos revolucionários, entraram em pânico. Hoje, a única coisa que interessa os Ocidentais é a luta contra o terrorismo islâmico e a segurança do petróleo do Golfo.

A palavra de ordem é não meter mais a mão na cumbuca árabe, nem para defender populações civis vítimas de massacres hediondos.

O problema é que a atual implosão das sociedades árabes não vai ficar só nisso. A questão central hoje é o provável desaparecimento de vários Estados da região. O Iraque já está caminhando a largos passos para uma forma de “libanização”: uma organização política baseada em comunidades confessionais ou étnicas. A região autônoma do Curdistão no norte já é praticamente um Estado independente, negociando contratos petroleiros com companhias internacionais sem passar pelo governo de Bagdá e dialogando de igual para igual com a Turquia.

Os sunitas, minoritários, controlam a parte ocidental do país enquanto os xiitas majoritários têm em mãos o governo central e resto do território. O problema é que tanto os sunitas quanto os xiitas também estão divididos em clãs, origens regionais ou grupos ideológicos. O Estado nacional e o governo não tem mais a mínima autoridade. A tal ponto que o Primeiro Ministro El-Maliki foi obrigado a pedir ajuda dos americanos, que aliás não querem saber do assunto. Na Líbia, o Estado é uma piada.

O primeiro ministro e o número dois dos serviços de inteligência foram até seqüestrados por grupos de milicianos. Milícias trocam tiros de armas pesadas em Trípoli enquanto outros grupos proclamam a autonomia da região oriental que produz dois terços do petróleo do país. Na Síria, não só os massacres inter-comunitários continuam, mas a própria Resistência ao regime de Bachar El-Assad está cada vez mais dividida. O país já está caminhando para partições de fato.

A verdade é que no Oriente Médio só existem três Estados com forte tradição administrativa e antiga legitimidade do poder central: o Egito, a Turquia e o Irã. Todos os outros são crias relativamente recentes, surgidas depois da queda do Império Otomano. As populações na região sempre viveram sob autoridades imperiais: os turcos e as potências européias.

Não havia nenhum passado de Estado, nem nenhum sentimento nacional forte. Hoje é uma região onde há governos, mas não existem nem Estados nem Nações. Saddam, Kadafi, os Assad tentaram construir um Estado nacional com mão de ferro, mas às custas de uma repressão violenta contra qualquer tipo de oposição e contra as identidades confessionais ou regionais que não faziam parte da pequena casta dominante. Mas agora a panela de pressão explodiu.

A região está voltando para a situação que sempre foi a sua: ou um poder imperial impõe a paz pela força, ou senão nada poderá impedir a guerra de todos contra todos. Só que por enquanto, não tem mais ninguém com apetite de imperador. Washington só que saber de proteger as reservas de petróleo do Golfo. O europeus, cansados de guerra, não tem mais nenhum gosto por esse tipo de aventura. O Egito já tem bastante problemas em casa. A Turquia de Erdogan tem um sonho neo-otomano, mas não tem meios para isso.

E o Irã, apesar de sua influência no Iraque, na Síria e no Líbano, não quer de jeito nenhum se meter nesse pântano. Por enquanto, ninguém sabe qual será a nova organização política que vai sair dessa violência geral. Todo mundo está com medo, mas todo mundo só sabe rezar para que alguma coisa dê certo. E que a carnificina regional não se espalhe para os vizinhos e o resto do planeta.

 

Clique acima para ouvir a crônica de política internacional de Alfredo Valladão.
 

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