Fato em Foco

Para historiador americano, verdade sobre morte de Kennedy não muda a história

Áudio 08:47
Presidente John F. Kennedy desfila em limusine, ao lado da mulher, Jacqueline, antes de ser assassinado.
Presidente John F. Kennedy desfila em limusine, ao lado da mulher, Jacqueline, antes de ser assassinado. Wikipédia

Hoje completam-se 50 anos de um dos crimes mais intrigantes do século 20, o assassinato do presidente americano John Fitzgerald Kennedy. Tão impressionante quanto os três tiros disparados contra ele em plena luz dia, em meio a um desfile oficial, é o fato de que após 1963, o mistério sobre a morte não foi elucidado. Lee Harvey Oswald foi considerado culpado sem jamais admitir o crime, e acabou assassinado dois dias depois. Para o historiador americano Cliff Welch, da Universidade Federal de São Paulo, as circunstâncias da morte do carismático JFK não mudam a marca que ele deixou na história.

Publicidade

Cinquenta anos depois, a autoria da morte de John Kennedy ainda é questionada: 61% dos americanos acreditam que ele foi vítima de uma conspiração. Qual a importância histórica deste mistério?
Infelizmente a comissão Burger, que fez as primeiras investigações, cometeu muitas besteiras no processo. Eles não falaram com certas pessoas, outras morreram antes que fossem interrogadas. Eles também queimaram provas, e tudo isso para proteger Kennedy e a herança histórica dele. Isso tudo deixou abertos muitos vazios para que o trabalho da comissão fosse questionado, já que ela tinha apontado o Oswald como um assassino solitário. Acho que, por causa destes problemas, no fundo eu acho que os questionamentos sobre o que aconteceu nunca vão morrer. E na verdade isso não importa muito. Para mim tudo isso é uma grande distração. Temos um relatório sobre o que o Kennedy conseguiu fazer até ser assassinado e a herança histórica dele, para ser analisada, é essa. Saber quem matou ele não faria muita diferença. E eu acho tão difícil de provar qualquer uma das hipóteses de conspiração quanto provar que Oswald foi um assassino isolado.

Mesmo com alguns arquivos ainda classificados e se novas revelações forem feitas sobre o assassinato, o senhor acha que nunca vai se ter certeza sobre o que realmente aconteceu?
Eu acho que sim. Eu acho que vamos aprender mais sobre o governo Kennedy. Por exemplo, uma das hipóteses é que o governo de Fidel Castro estivesse envolvido. E a gente sabe que o governo Kennedy estava planejando assassinar Fidel Castro. Mas por outro lado há bastante evidências de que Fidel Castro achou um absurdo dizerem que ele tentou matar Kennedy, sendo que ele reclamava que Kennedy queria matá-lo. Talvez um dia vamos saber melhor. Esses dias, também houve notícias de que Kennedy estava tentando negociar um tratado de paz com Castro, naquele mesmo momento.

Aquela época era bastante conturbada na história das Américas. Há evidências de que John Kennedy também estaria envolvido com o golpe militar em curso no Brasil.
Sim, temos muitas evidências do papel da administração Kennedy para dificultar a vida de João Goulart e apoiar um processo de monitoramento, neste possível apoio dos Estados Unidos na conspiração contra Goulart. Um dos aspectos mal compreendidos sobre Kennedy foi a que ponto ele foi um grande atuante na Guerra Fria. Esse confronto com a União Soviética caracterizou a administração dele, o que pode ser visto na crise dos mísseis em Cuba, no envolvimento na guerra do Vietnã, etc. São várias instâncias que provam o quanto este enfrentamento principal, da Guerra Fria, era importante pra ele. Por isso, lugares como o Brasil foram vistos como muito importantes, para garantir que eles não se tornassem aliados da União Soviética. A gente vê, por exemplo, uma ênfase no Brasil nos planos da Aliança para o Progresso, que era uma grande iniciativa do governo Kennedy. O Brasil foi um dos países que recebeu a maior quantidade de dinheiro.

John Kennedy até hoje é visto por muitos americanos como um dos melhores presidentes. Ele era um homem muito carismático e, talvez por isso, tenha deixado a sua marca na história, embora tenha governado pouco e o seu legado tenha sido de não tão grandes realizações. O senhor acha que Kennedy foi um bom presidente?
Eu diria que ele foi um bom presidente, mas não diria que foi um ótimo presidente. Eu cresci em um ambiente democrata. Me lembro até que na nossa primeira viagem transcontinental nos Estados Unidos logo depois do assassinato, passamos por Dallas para ver o local onde ele foi assassinado. Eu tinha sete anos e este assassinato dele foi muito marcante para a minha vida. Mas eu acho que, em princípio, as pessoas que morrem sem concluir o seu trabalho, sejam músicos ou políticos, e principalmente jovens, sempre acabam sendo lembradas com um “se” na sua história. “Se isso tivesse acontecido assim.” Criam-se dúvidas que não têm respostas. De qualquer forma, sim, ele estava levando o país para um rumo diferente do governo Eisenhower. Ele estava quebrando com várias tendências do país, estava abrindo o debate sobre a questão racial, estava apoiando a criação das leis de direitos civis. Ele estava passando para o público uma visão das intervenções dos Estados Unidos que era muito mais humanitária e positiva do que tinha sido nos anos 50. Se ele tivesse realmente conseguido realizar o que ele prometia, a história teria sido diferente. Mas não temos como fazer qualquer conclusão sobre isso. Acho que os discursos e os planos dele foram uma inspiração não só para os americanos como para muitos povos do mundo.

De certa forma foi inspiração também para o presidente Obama, não?
Tem algumas coisas, sim. Obama se identificou com várias políticas de Kennedy, em parte para atrair mais apoio, mais atenção, e para mudar a identidade o Partido Democrata, com uma imagem mais positiva. Mas hoje é um período da historia muito diferente. Porém uma coisa que podemos identificar como uma reflexão da mesma época é o papel dos Estados Unidos no mundo. Com o governo de George Bush Junior, havia uma perspectiva mundial muito negativa sobre o papel dos Estados Unidos no mundo. E Obama trabalha muito neste sentido, de tentar “abraçar” o mundo, de uma maneira mais positiva. O discurso que ele deu no Egito é um exemplo disso. Kennedy também tentou fazer isso. Podemos falar do discurso que ele fez em Berlim. Acho que, neste sentido, certamente tem uma sombra de Kennedy no governo Obama.
 

NewsletterReceba a newsletter diária RFI: noticiários, reportagens, entrevistas, análises, perfis, emissões, programas.