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O Mundo Agora

Acordo de Genebra é um primeiro teste de confiança entre o Irã e o resto do mundo-diz analista

Áudio 05:10
A chefe da diplomacia europeia, Catherine Ashton com o ministro das Relações Exteriores do Irã, Mohammad Javad Zarif. 24 de novembro de 2013
A chefe da diplomacia europeia, Catherine Ashton com o ministro das Relações Exteriores do Irã, Mohammad Javad Zarif. 24 de novembro de 2013 REUTERS/Denis Balibouse
Por: Alfredo Valladão
10 min

A fotografia é pouco comum. Os ministros das Relações Exteriores das seis principais potências do planeta sorrindo ao lado do chefe da diplomacia iraniana: o fato é inaudito. Mas o que foi assinado, depois de ásperas negociações entre o Irã e os mandachuvas da política internacional, não é bem um acordo. Trata-se apenas de um primeiro passo para testar – e se possível estabelecer – um mínimo de confiança entre os iranianos e o resto do mundo. A pendenga é sobejamente conhecida: como impedir o Irã de se tornar uma potência nuclear militar, com todas as consequências catastróficas que isto poderia ter para o equilíbrio geopolítico do Oriente Médio e para a paz mundial. E ao mesmo tempo, como construir um regime de controle do programa atômico iraniano, super intrusivo, mas permita que Teerã possa manter um programa nuclear civil sem dentes militares.Clique no botão acima para ouvir a crônica de política internacional de Alfredo Valladão, professor do Instituto de Estudos Políticos de Paris

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O acordo de Genebra não resolveu o problema, mas pela primeira vez os iranianos aceitaram frear de maneira significativa o desenvolvimento de seus planos nucleares e se submeter a inspeções mais detalhadas. Em contrapartida, as grandes potências resolveram desapertar só um pouquinho o intenso embargo econômico contra o Estado iraniano.

Aliás, depois desafiar o mundo inteiro durante anos, o governo de Teerã foi obrigado a jogar um pedacinho da toalha justamente porque não aguentava mais o peso das sanções. Mas apesar deste modesto começo de diálogo, esse acordinho preliminar já tem um significado político e estratégico enorme: pela primeira vez, desde a revolução islâmica de 1979, o Irã volta a ter um protagonismo aceito pela comunidade internacional. E só esse fato já está mudando o futuro do Oriente Médio.

Desde o final da Segunda Guerra Mundial, a geopolítica regional gira em torno de duas grandes questões: a segurança de Israel na região e o petróleo. Durante o regime monárquico do Shah, o Irã era considerado como um aliado fundamental, por Israel e pelos Ocidentais, para garantir o status quo regional.

Mas o radicalismo da revolução xiita do comandada por Khomeini gerou pânico nos países vizinhos, árabes e sunitas, que sempre desconfiaram das ambições hegemônicas de Teerã. O Irã passou a ser visto como uma ameaça direta. E verdade seja dita os aiatolás iranianos não fizeram nada para combater essa imagem.

Muito pelo contrário, eles tentaram várias vezes promover levantamentos das minorias xiitas locais contra as monarquias do Golfo, intimidar vizinhos árabes e projetar poder na região financiando e apoiando militarmente o Hamas na Faixa de Gaza, o Hezbollah no Líbano e até o regime de Bachar Al-Assad na Síria. Sem falar nas proclamações constantes prometendo destruir o Estado de Israel.

Com a “primavera árabe” no mundo sunita e o programa nuclear iraniano, o enfrentamento entre xiitas e sunitas tornou-se mais sangrento e intratável. E o Irã, acusado de querer dominar o Oriente Médio virou pária, tanto para a região quanto para o resto do mundo. Só que agora existe uma possibilidade, ainda que não garantida, de que Teerã possa voltar a ser um interlocutor legítimo no jogo diplomático regional.

E que a velha aliança entre os americanos e os iranianos volte a valer. E é claro que se isso acontecer haverá perdedores, os mais importantes sendo Israel e a Arábia Saudita, inimiga figadal do vizinho iraniano.

Israel, ameaçado permanentemente pela retórica exterminadora dos aiatolás iranianos, desconfia que tudo isso é um jogo de Teerã para poder continuar a construir a bomba atômica. E o Estado judeu sabe perfeitamente que na hora do “vamos-ver” eles não podem depender de ninguém, nem do aliado americano cansado de guerra.

Sobretudo se Washington estiver disposto a aceitar o Irã como peça chave na manutenção dos fluxos de petróleo do Golfo e na resolução dos conflitos regionais, particularmente na Síria. Já para os Sauditas, essa cartada iraniana da administração Obama é um pesadelo. Com a volta do Irã ao mercado mundial do petróleo eles perdem o estatuto de único aliado privilegiado dos Estados Unidos no mapa regional dos hidrocarbonetos.

Além disso, um Irã no limiar do nuclear militar seria uma ameaça mortal para a monarquia dos Saud que já declararam que poderiam também comprar uma capacidade militar atômica. O papel central da Arábia Saudita – e de seu polpudo talão de cheques – na região seria profundamente contestado.

É por essas e outras que o acordo de Genebra ainda tem muito caminho pela frente e muitos adversários poderosos que tentarão tudo para sabotar o processo. Agora, é esperar a próxima etapa – mais substantiva – das negociações, daqui a seis meses, para ver se vai dar para emplacar realmente esse primeiro sucesso diplomático.
 

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