O Mundo Agora

Escândalo com NSA demonstra que guerra cibernética começou

Áudio 05:01
Reu

“Os arapongas da Agência de Segurança Nacional americana foram a gota d’água. A guerra cibernética já começou. Nos últimos anos vários pequenos incidentes – a maioria envolvendo ataques vindos da China – alarmaram empresas e governos. Invadir os computadores de grandes firmas para roubar segredos tecnológicos já virou esporte. Penetrar sistemas de ciber-controle de infra-estruturas estratégicas de um país também faz parte do jogo. Tanto como monitorar as mensagens na Internet ou mapear as conexões individuais de simples pessoas ou de políticos e chefes de Estado. Uma prática que não é só americana mas de qualquer governo que tenha capacidade técnica para isso. Sem falar no famoso vírus Stuxnet, criado pelos Estados Unidos e Israel, para sabotar o programa nuclear iraniano.

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A possibilidade de ciber-guerras está se tornando um verdadeiro pesadelo nesse mundo cada dia mais interconectado e extremamente dependente do bom funcionamento das redes de comunicação e dos sistemas de monitoramento e controle automáticos.

E não é só a segurança dos Estados e das empresas que está em jogo, mas também a própria vida quotidiana das pessoas. É quase impensável hoje uma vida social sem internet. A rede é cada vez mais usada para o consumo, o intercâmbio, o lazer, os pagamentos, a papelada burocrática – qualquer ato prático da vida normal.

Na economia em geral, o ciberespaço é fundamental para a competitividade das empresas, a pesquisa e a inovação, a organização da produção e dos transportes. E não há mais nenhuma administração pública moderna que possa funcionar sem esse universo digital.

Daí o medão. Qualquer governo bem equipado ou qualquer “hacker” individual do tipo “gênio da informática” poderia paralisar regiões inteiras com alguns vírus ou manipulações à distancia. O que seria um planeta a mercê de imensos apagões provocados por um ataque cibernético? Ou de uma perturbação grave dos serviços de água? Ou uma sabotagem em larga escala do transporte aéreo e marítimo? Ou – pior – uma tomada de controle por via informática de armas de destruição massiva?

Na verdade, a questão da ciber-guerra está se revelando tão estratégica para a paz no mundo no século XXI quanto a ameaça de guerra nuclear no século XX. No caso das armas atômicas, a equação de segurança era relativamente fácil de ser resolvida. Para começo de conversa, só haviam dois protagonistas com capacidades sérias de incinerar o planeta, a Rússia e os Estados Unidos.

As outras poucas potências nucleares eram só atores de terceira categoria. A não utilização dessas armas apocalípticas era garantido pela realidade da “dissuasão mútua”: atacar seria destruir-se a si próprio. Mas só isso não bastava. Era também necessário disciplinar a corrida para desenvolver armamentos mais sofisticados que poderiam alterar as regras da dissuasão. Esse problema foi enfrentado por meio de negociações permanentes para o controle de armamentos. Como dizia Churchill: “é melhor muita conversa do que muito tiro”.

Só que as ciber-ameaças são muita mais complicadas. Primeiro, existe uma multidão de guerreiros potenciais, não só os Estados, mas empresas, grupos e até indivíduos. Segundo: como definir o que é uma “arma” cibernética? Um mesmo “soft” de monitoramento perfeitamente necessário e legal pode também servir para fins malévolos. No mundo das tecnologias da informação e comunicação tudo pode ter uso “dual”. É portanto extremamente difícil estabelecer uma nova dissuasão. Mas também não é mais possível ficar sem fazer nada. O perigo está tomando proporções alarmantes.

Inventar um processo de controle de armamentos cibernéticos virou prioridade máxima. E é exatamente isso que estão tentando fazer os 41 países membros do Arranjo de Wassenaar, um grupo formado logo após o fim da Guerra Fria para controlar a exportação de armas convencionais e bens e tecnologias “duais”. O grupo reúne todos os países industrializados ocidentais, além da Rússia, México, Argentina, Turquia, Coréia do Sul, Austrália, Nova Zelândia e África do Sul – nem o Brasil, nem a Índia, nem a China são membros.

O “Arranjo”, que acaba de se reunir em Viena, decidiu controlar – e até proibir quando necessário – a venda de “sistemas de monitoramento das comunicações” e de “softs intrusivos”. O comércio de tecnologias para “mapear as redes de relações de indivíduos ou grupos” também serão estritamente enquadradas.

Com uma exceção bem marota: serão aceitas quando forem utilizadas pelos marqueteiros e o monitoramento de consumidores. É claro que já era tempo de tentar controlar a guerra cibernética, mas tudo isto também parece abrir o caminho para o controle governamental da Internet. Só que o mundo digital não é mais só dos governos. Os políticos tem pouca chance de convencer e disciplinar os milhões de utilizadores e piratas potenciais que passeiam pela Net.”

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