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Com anistias, Rússia quer maquiar opressão a opositores para Jogos de Inverno

Áudio 05:06
Presidente russo, Vladimir Putin, deseja que as polêmicas de direitos humanos não ofusquem Olimpíadas de Inverno.
Presidente russo, Vladimir Putin, deseja que as polêmicas de direitos humanos não ofusquem Olimpíadas de Inverno. REUTERS/Aleksey Nikolskyi/RIA Novosti/Kremlin

Especialistas na geopolítica russa foram unânimes: por trás da anistia concedida pelo presidente Vladimir Putin a um dos seus maiores adversários, o ex-magnata do petróleo Mikhail Khodorkovsky, está o desejo do líder de maquiar a situação delicada do país sobre os direitos humanos, na véspera dos Jogos Olímpicos de Inverno de Sochi, em fevereiro. A decisão, anunciada na semana passada, pegou o mundo de surpresa, mas poucos são os que acreditam em uma mudança real dos rumos do governo sobre a opressão de opositores políticos ou a homofobia.

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Especialista na história da Rússia, Pierre Verluise, diretor do site de relações internacionais Diploweb, observa que Putin está determinado a colocar o país de volta ao centro restrito de líderes mundiais – e que o respeito aos direitos humanos nunca foi uma condição para entrar neste clube.

“Existe uma relação imediata e óbvia entre direitos humanos e potência? Podemos debater. Eu sou favorável aos direitos humanos, mas essa postura, de dar importância a isso, é muito francesa”, diz. “Que eu saiba, a China não respeita os direitos humanos, mas isso não a impediu de ser uma potência emergente.”

Além do ex-magnata, também as duas membros do grupo Pussy Riots e os integrantes da ONG Greenpeace foram anistiados na semana passada. Um sinal de boa vontade do presidente? Certamente não, responde Verluise. Mas além do público interno russo, há diversos países que se contentam com estes sinais efêmeros para apoiar Moscou no cenário internacional.

“Vai acreditar nele quem estiver a fim de acreditar. Desde o início dos anos 2000, observamos, nos países ocidentais, uma vontade de acreditar na Rússia de Putin, depois na Rússia, de Medvedev, depois na do Putin de novo. Lembro que quando Medvedev assumiu a presidência, muitos ocidentais tiveram um nó na cabeça para tentar entender se ele era mais ligado ao Estado de Direito do que Putin”, constata. “Muitos apostaram suas fichas em Medvedev, antes de constatar que a Rússia de hoje não é uma democracia e tem poucas chances de virar uma a médio prazo.”

Ao conceder as recentes anistias, Putin tem na mira os Jogos Olímpicos de Sochi. O presidente quer evitar, a qualquer custo, que as questões de direitos humanos acabem ofuscando as Olimpíadas de Inverno. A lei russa de proibição da chamada “propaganda gay” teve péssima repercussão internacional, levando diversas organizações a pedirem o boicote da competição. E quem foi escalado para portar as bandeiras americanas na abertura do evento serão atletas homossexuais.

Paulo Wrobel, pesquisador do Brics Policy Center, acha que Putin deseja atenuar essa imagem negativa. “São medidas cujo custo político doméstico para ele é muito pequeno, e o ganho internacional é relativamente grande”, comenta. “Eu não acho que possa acontecer um boicote maciço aos Jogos Olímpicos, mas certamente isso vai atrair a atenção, portanto ele está tentando construir um clima de maior benevolência em relação à Rússia”, afirma. “É difícil saber se isso vai ter um efeito positivo ou não, dado que a homofobia na Rússia é algo que tem mais a ver com a sociedade do que propriamente com o governo.”

Já o historiador Ângelo de Oliveira Segriello, autor de diversas obras sobre a história da Rússia, lembra que Putin conta com uma forte popularidade interna. O pesquisador da USP é cético sobre uma mudança dos rumos do governo.

“Eu acho que depois tudo vai voltar mais ou menos a como está agora, a não ser que haja mudanças no cenário político. De repente há uma grande crise econômica e aí, sim, o Putin pode perder legitimidade”, explica. “A legitimidade do Putin vem muito do sucesso econômico.”

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