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Luta por direito de mulheres a dirigir vira símbolo de ativistas na Arábia Saudita

Áudio 08:01
Mulheres postam fotos ao volante na internet.
Mulheres postam fotos ao volante na internet. Reprodução Youtube

Neste domingo, as mulheres sauditas vão ousar. Se você pensa que elas sairão às ruas sem véu islâmico ou vão tentar frequentar um bar, se engana. Num dos países onde a religião muçulmana é seguida mais à risca, elas vão protestar para conquistar o direito de dirigir um carro. A Arábia Saudita é o único país que ainda proíbe as mulheres de pegar no volante.

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Para tentar quebrar este paradigma, dezenas delas prometem dirigir no domingo, uma manifestação que se repetiu diversas vezes neste ano. Mas na realidade, este protesto já virou um símbolo da luta pelos direitos das mulheres sauditas: o primeiro foi registrado em 1990, e de lá para cá volta à tona de acordo com a situação no país.

Em uma sociedade dividida entre islamistas e liberais, a monarquia saudita sempre preferiu ficar em cima do muro para não desagradar nenhum dos campos. Mas em um contexto de tensão gerado pela Primavera Árabe, o desejo de mudanças aumentou, conforme o pesquisador Stéphane Lacroix, especialista em movimentos sociais no Oriente Médio e em especial na Arábia Saudita.

“O governo responde várias maneiras às reivindicações. No passado, era menos pela repressão e mais com a tentativa de convencer essas mulheres a pararem, o que às vezes incluía ações de intimidação. Mas ele evitava fazer uma repressão visível demais”, recorda. “Agora, temos a impressão de aumentou a tensão sobre o tema nos últimos meses, provavelmente devido ao contexto da Primavera Árabe. O poder saudita está virando cada vez mais intransigente porque se sente cada vez mais ameaçado.”

Papel das redes sociais

O pesquisador do Centro de Estudos e Pesquisas Internacionais da Sciences Po, em Paris, destaca que, em um país fechado como a Arábia Saudita, a mobilização feminina toma força através das redes sócias, a exemplo do que aconteceu nos protagonistas da Primavera Árabe.

“As redes sociais têm um papel central na Arábia Saudita, que inclusive é o país que tem mais usuários de Twitter por habitante. Virou um meio de expressão graças ao qual as pessoas desafiam os limites e falam das coisas que não se deve falar”, afirma. “E o governo não consegue reprimir o Twitter como ele faz com a imprensa tradicional, de forma que o Twitter virou um espaço de liberdade de expressão.”

Aproveitando este espaço, em outubro um artista e ativista publicou um vídeo que criou polêmica sobre o assunto. Inspirado no raggae de Bob Marley, Hisham Fageeh fez uma paródia para criticar a proibição das mulheres motoristas. O vídeo fez sucesso no youtube e incomodou o poder.

Já as mulheres se escondem sob burcas e niqabs, mas na internet liberam a palavra. É por ali que elas organizam as manifestações, mas também onde conseguem dar a opinião sobre temas polêmicos do país. Na questão da direção, o governo chegou a divulgar que pegar no volante era prejudicial aos ovários femininos – em uma declaração que também virou piada na internet.

“O Twitter tem a vantagem de não ter restrição de gênero. Enquanto o espaço público na Arábia Saudita é segregado, com homens e mulheres não podendo estar no mesmo lugar se não tiverem laços familiares, no Twitter essas distinções se apagam. Cada um está atrás de um pseudônimo.”, comenta o especialista.

Homens feministas

E não é só por mulheres que é feito o movimento pelo direito de dirigir. Stéphane Lacroix garante que há muitos homens feministas na Arábia Saudita. “Sempre houve homens feministas na Arábia Saudita. Eles estão presentes nas mobilizações das mulheres pelo direito de dirigir desde o início, em 90, e têm um papel importante”, diz. “São liberais, no sentido mais amplo, e principalmente de esquerda.”

A última conquista das mulheres sauditas foi o direito ao voto nas eleições municipais, concedido em 2011.
 

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