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Greve dos profissionais do espetáculo cancela festivais de verão na França

Áudio 05:42
Profissionais do espetáculo realizaram manifestações em toda a França na segunda-feira (16).
Profissionais do espetáculo realizaram manifestações em toda a França na segunda-feira (16). REUTERS/Gonzalo Fuentes

Em greve há mais de uma semana, os profissionais do espetáculo, conhecidos como intermitentes, vivem dias difíceis na França e podem perder um importante benefício. Pressionado pela organização patronal Movimento das Empresas da França (Medef) e três sindicatos (CFDT, FO e CFTC), o governo socialista de François Hollande deve aprovar no dia 1° de julho um acordo que prejudica o regime de seguro-desemprego da categoria. O resultado é o possível cancelamento total ou parcial dos principais eventos culturais do verão em todo o país.

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A classe dos intermitentes é formada principalmente por artistas e técnicos ligados ao setor do espetáculo: cinema, audiovisual, teatro e música, e conta com quase 260 mil profissionais no país. Desde 1936, eles beneficiam de um regime especial segundo o qual gozam de um seguro-desemprego durante oito meses após justificar pelo menos 507 horas de trabalho.

O acordo firmado no dia 22 de março entre o governo e o Medef estabelece que os salários dos 112 mil profissionais do setor que recebem o benefício atualmente terão um teto de € 5.475 (cerca de R$ 16 mil) por mês. No entanto, haverá um prazo para o salário começar a ser pago, durante o qual os profissionais não receberão nada. Se aplicada, a medida afetará 48% dos profissionais, contra 9% hoje. Além disso, o imposto sobre os salários vai passar de 10,8% a 12,8% (8% para os empregadores e 4,8% para os trabalhadores), duas vezes mais que no regime normal.

Sobrevivência do movimento artístico e cultural

A atriz Aline Borsari, da companhia francesa Théatre du Soleil, lembra que o regime dos intermitentes é único no mundo e que ele é fundamental para a sobrevivência do movimento artístico e cultural na França. “É preciso ter consciência da importância em manter essa estrutura, seja desta forma ou com algumas mudanças. Esse momento é crucial para falar deste regime como um todo, repensar seus problemas, avaliar o que poderíamos fazer para evitar os gastos excessivos, e manter o regime em funcionamento”, analisa.

O músico brasileiro radicado na França, Jaiminho Moreira, é intermitente há mais de 20 anos. Para ele, o regime traz proteção e tranquilidade para que os artistas possam exercer suas atividades quando não estão formalmente vinculados a um contrato. “Um intermitente pode trabalhar durante dois ou três meses elaborando um projeto para, por exemplo, uma ou duas apresentações. O atual regime é uma estrutura de base, que protege esses profissionais. Por isso, as mudanças propostas pelo Medef podem ter drásticas consequências”, avalia.

Cancelamento dos festivais

A falta de entendimento entre o governo, o Medef e os intermitentes tem como principal consequência o cancelamento total ou parcial dos festivais de música, teatro e música, tradicionais do verão na França. O famoso festival de teatro de Avignon, um dos maiorese do mundo, também está ameaçado. Quase 20 eventos programados para este verão já foram atingidos pela greve.

Na última segunda-feira (16), dez mil manifestantes saíram às ruas de Paris e outros milhares protestaram nas principais cidades francesas contra as mudanças no regime. Ontem (18), manifestantes invadiram as obras da Filarmônica da capital, no 19° distrito.

O patronato, no entanto, segue impassível quanto à revisão da convenção. O presidente do Medef, Pierre Gattaz, não vê outra possibilidade senão a aprovação do acordo pelo governo. “Eu lembro que 75% dos artistas, os mais precários, não são afetados pelas modificações propostas. Perdemos € 4 bilhões por ano com este regime e o acúmulo destas perdas chegarão a € 21 bilhões”, argumenta.

Já o secretário-geral do setor de espetáculos da Confederação Geral do Trabalho, Denis Gravouil, diz estar aberto para dialogar com o governo e o Medef. “Alertamos a ministra da Cultura e o ministro do Trabalho para lhes dizer que temos uma proposta se eles quiserem evitar um conflito neste verão. O que é certo é que este texto do 22 de março não pode ser aprovado”, diz, ressaltando que a greve dos intermitentes continuará em julho caso não se chegue a um acordo.

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