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Linha Direta

Cristina Kirchner usa calote da dívida para tirar vantagem política

Áudio 05:12
A presidente argentina Cristina Kirchner declarou guerra aos fundos abutres.
A presidente argentina Cristina Kirchner declarou guerra aos fundos abutres. REUTERS/Marcos BrindicciCristina Kirchner de dar calote na dívid
10 min

"Pátria ou Abutres", esse é o lema da guerra do bem contra o mal na Argentina. A guerra é a estratégia da presidente Cristina Kirchner para recuperar o seu capital político e para justificar o recuo econômico que já afeta o país. Nesta terça-feira (12), em Buenos Aires, cerca de 10 mil militantes a favor de Cristina Kirchner vão fazer dessa bandeira nacionalista "Pátria ou Abutres" a batalha épica contra os chamados fundos abutres que acabam de levar o país ao default por impasse jurídico.

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Márcio Resende, correspondente da RFI Brasil em Buenos Aires 

A presidente Cristina Kirchner decidiu tirar proveito político daquilo do qual ninguém podia supor que tivesse algum lado positivo: o calote da dívida.

Essa estratégia de fazer de uma guerra perdida na Justiça norte-americana uma nova guerra tem basicamente a intenção de unir a militância em torno de uma causa patriótica, de recuperar terreno político e, sobretudo, de encobrir os verdadeiros problemas do país.

No discurso nacionalista de Cristina Kirchner, a Argentina foi vítima de um complô internacional orquestrado pelo juiz de Nova Iorque, Thomas Griesa, em cumplicidade com os fundos abutres e com a complacência do governo dos Estados Unidos.

Buenos Aires, aliás, está empapelada com cartazes nos quais aparecem abutres com a bandeira dos Estados Unidos ao fundo.

Hoje, no mini-estádio do Luna Park, entre 7 e 10 mil militantes e membros do governo vão-se reunir para o primeiro ato político que consolida essa construção de um novo inimigo externo.

Motivações do governo argentino

A necessidade de desviar a atenção e de encontrar um culpado para as falhas do próprio governo é o que leva a presidente levar este conflito adiante.

Mas o impulso para a estratégia oficial são as pesquisas de opinião. Uma dessas sondagens é do Centro de Estudos de Opinião Pública. Cristina Kirchner subiu 5 pontos no último mês. Outra consultoria, a Management & Fit, uma das mais prestigiosas, garante que a imagem positiva da presidente subiu 7 pontos desde o dia 30 de julho, quando o país preferiu não acatar a sentença a favor dos fundos especulativos.

Mesmo antes de a Argentina entrar em moratória, a economia já vinha em queda livre. A recessão combinada com a galopante inflação e com uma paralisia total dos investimentos preanunciavam uma crise que o calote tende agora a aprofundar. Dificilmente o governo poderia reverter esse quadro.

A "guerra" também serve para a presidente desviar a atenção de outro grande problema. O vice-presidente, Amado Boudou, escolhido a dedo por Cristina Kirchner, está indiciado pela Justiça em dois processos: um por corrupção e outro por fraude. Também é investigado em outras causas como enriquecimento ilícito.

Ação judicial

A Argentina entrou com uma ação judicial contra os Estados Unidos na Corte Internacional de Haia por considerar que a sentença dos tribunais norte-americanos "violam imunidades soberanas". Mas os Estados Unidos não reconheceram a jurisdição de Haia. O governo de Barack Obama disse que a saída para a Argentina é negociar com quem ganhou o processo: os fundos abutres.

A Argentina também publicou anúncios nos principais jornais financeiros do mundo nos quais afirma que pagou aos demais credores e que, portanto, não está em moratória.

O juiz reagiu. Ordenou que a Argentina parasse com as afirmações "falsas e enganosas" e advertiu que se o governo continuar a enganar, a Argentina será declarada em desacato.

Qualquer eventual recuo do juiz será usado politicamente pelo governo Kirchner como uma vitória sobre os inimigos.

As pesquisas podem começar a indicar que a população associa a crise econômica à postura do governo. Ou seja: essa estratégia pode durar até a onda expansiva do calote chegar à economia real.

Na guerra entre a Argentina e os fundos abutres, a artilharia argentina revelou-se até agora ineficaz. Mas o alvo mesmo de Cristina Kirchner é o público doméstico. Para isso, a artilharia serve, mesmo que seja de festim para o exterior.

O renomado e falecido historiador argentino Ignacio García Hamilton dizia que "Na Argentina, o melhor amigo do homem não é o cachorro; é o bode... o bode expiatório". E ele uma vez me disse que "quanto mais estrangeiro e distante for esse bode, melhor".
 

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