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França

De onde vem a fama de mal-humorado do parisiense?

Áudio 04:00
Paris é a cidade mais visitada do mundo, mas também onde os turistas são mais mal-recebidos:
Paris é a cidade mais visitada do mundo, mas também onde os turistas são mais mal-recebidos: RFI / François-Damien Bourgery
Por: Taíssa Stivanin
9 min

Paris é a cidade mais visitada do mundo e recebe cerca de 47 milhões de turistas todos os anos, segundo dados divulgados no início de 2014 pela prefeitura da capital. Um resultado que contrasta com a má fama do parisiense, considerado como um povo pouco hospitaleiro.

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Qual a origem da péssima reputação dos parisienses, cantada em prosa e verso mesmo pelos franceses de outras regiões ? Arrogantes, egocêntricos, mal-educados…O mau-humor do parisiense levou até mesmo o moderníssimo aeroporto Charles de Gaulle, em Roissy, a ser qualificado como um dos piores do mundo pelo canal americano CNN. Isso por conta da indiferença dos funcionários em relação aos passageiros em trânsito, segundo a pesquisa.

Em 2012, a empresa RATP, que administra o metrô da cidade, chegou a lançar uma campanha para tentar melhorar a imagem dos habitantes da capital. "Restons Civils" (Sejamos civilizados em tradução livre), apela para o bom senso dos usuários e incita à aplicação de regras mínimas de boa educação: dizer bom dia, ceder o lugar para pessoas mais velhas e até mesmo…. estar limpo, já que as regras de higiene não são, aparentemente, seguidas à risca por alguns passageiros.

Até mesmo os franceses de outras regiões têm uma implicância com Paris: na cidade de Marselha, ser chamado de ‘parisiense’ é considerado um insulto. A rivalidade entre as duas cidades, aliás, é explicíta no futebol: os torcedores do Paris Saint-Germain e do Olympique de Marselha, por exemplo, já protagonizaram vários tumultos sangrentos nas saídas dos estádios.

"É a única cidade do mundo onde os clientes são expulsos das mesas"

Os turistas são os primeiros a corroborarem essa tese: o parisiense não é o povo mais simpático do mundo, principalmente com quem não está habituado a certos códigos da cidade - como andar sempre do lado direito da escada rolante, por exemplo.

A gerente de comunicação Alessandra Medina coleciona histórias da primeira vez em que esteve em Paris. "É o único lugar do mundo onde, depois de tomar um café, o garçom vira e manda você sair porque tem outras pessoas esperando", conta Alessandra. Ela se lembra de um episódio particularmente marcante: um garçom que confundiu os pedidos e trouxe um bife para um cliente que havia encomendado outro prato. Cansado da espera, ele decidiu comê-lo mesmo assim. "Só que o garçom percebeu o erro e destrocou os pratos, levando o bife comido para ser consumido em outra mesa", descreve Alessandra.

O jornalista Pedro Só faz uma ressalva. Para ele, que vive no Rio, de uma maneira geral o carioca é mais mal-educado do que parisiense. "É claro que Paris é uma cidade grande, tem todos os fatores embrutecedores do cotidiano de uma metrópole, coisas estressantes no cotidiano das pessoas mas, em termos relativos acho que parisiense hoje em dia não é tão mal-humorado quanto antigamente." Pedro reconhece, entretanto, já ter tidos más experiências no passado.

"A primeira vez que estive na cidade, em 1995, fui maltratado no transporte coletivo, na agência dos Correios…eu era jovem, provavelmente mais pobre, já falava francês, talvez até mais fluente do que hoje, mas penei e fui bastante maltratado. Teve um motorista de ônibus que até me deixou no ponto errado! Mas, ao longo dos 20 anos, acho que esse mau-humor legendário foi diminuindo."

"Os brasileiros se viram bem em Paris"

O jornalista canadense Louis-Bernard Robitaille vive em Paris há quarenta anos. Em março deste ano, ele lançou o livro "Les Parisiens sont pires que vous ne le croyez" (Os parisienses são piores do que vocês imaginam, em tradução livre.) O livro conta, de maneira bem-humorada, porque os habitantes da capital têm essa fama. Um dos motivos, diz o autor, seria a densidade demográfica, já que Paris é uma das cidades mais populosas do mundo. De acordo ele, a relação com os parisienses "é um jogo."

"Quando a gente sai para tomar um café, devemos estar prontos para uma espécie de jogo de sedução, ou um debate. O francês tem um problema em ter um relacionamento somente comercial. Então o garçom do café considera que está recebendo você na casa dele e você é que deve ser amável. E os comerciantes são a mesma coisa. O francês não tem esse espírito comercial muito desenvolvido, contrariamente aos alemães, americanos ou britânicos."

Segundo eles, os brasileiros são uma nacionalidade que se adapta bem em Paris. "Conheci muitos brasileiros nos anos 70, do Rio. Pessoas que conheciam todo mundo, todos os esquemas…enfim, que sabiam de tudo. Quem vem dos países do hemisfério norte, protestante, têm mais dificuldades. Quem vem de países mais ‘sérios’ tem problemas em Paris, porque não se pode levar Paris totalmente a sério."
 

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