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Para analistas, chances de Aécio reverter fenômeno Marina são fracas

Áudio 04:44
Presidenciáveis iniciam o primeiro debate na TV da campanha.
Presidenciáveis iniciam o primeiro debate na TV da campanha. REUTERS/Paulo Whitaker

Desde que entrou na corrida presidencial, a candidata Marina Silva (PSB) tirou o sono dos dois favoritos nas eleições até a morte de Eduardo Campos. Tanto Dilma Rousseff (PT) quanto, principalmente, Aécio Neves (PSDB) perderam eleitores - mas para o tucano, reverter a situação é uma missão quase impossível, na opinião de analistas ouvidos pela RFI.

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As últimas pesquisas consolidam Marina no segundo turno e indicam que ela pode até bater a atual presidente e sair vitoriosa da eleição. Os números mostram que a ecologista capturou o voto de eleitores desmotivados e roubou de Dilma e Aécio aqueles que não tinham convicção na escolha.

“O grande impacto de Marina foi nos eleitores que estavam incomodados de ter que escolher um candidato ou que iriam votar nulo ou em branco”, aponta o cientista político Paulo Baía, da UFRJ. “Com certeza, há impacto nas campanhas dos dois, embora adotem um discurso de tranquilidade. Há um desânimo da militância, dos grupos de apoio, e isso tem reflexos principalmente para o Aécio, com financiadores de campanha que migram e uma série de questões que vão atrapalhando a campanha.”

Baía lembra que Marina Silva é conhecida em todo o país – nas últimas eleições, ganhou em lugares importantes como Brasília e Minas Gerais, e ficou em segundo lugar no Rio de Janeiro. O eleitor dela é a classe média urbana, o mesmo que Dilma e Aécio disputam.

Na opinião do pesquisador, o tucano peca ao tentar dar um tom mais social à campanha, uma estratégia que o coloca no mesmo campo de Dilma, em vez de diferenciá-lo da presidente. “Ele está indo para um lado mais social da sua campanha, tentando buscar o eleitor de classe C e o eleitor médio-urbano. Até o momento, essa estratégia não tem tido sucesso e ele parece não saber que caminho tomar, o que é normal diante de algo tão inesperado”, considera. “Eu acho muito difícil de o Aécio reverter o cenário de queda das intenções de votos nele.”

Assumir oposição

O pesquisador francês Frédéric Louault, especialista em política brasileira na Universidade Livre de Bruxelas e na Sciences Po, de Paris, também avalia que, para ter alguma chance, Aécio deveria assumir como nunca a postura de oposição, incluindo referências a quando Marina fazia parte do governo do PT.

“Ele deveria mostrar que a verdadeira oposição é o PSDB”, afirma. “Vai ser realmente muito difícil para Aécio, mas a boa notícia, para ele, é que acho que não pode piorar. Acho que a Marina agora está no auge e não consegue subir mais do que isso nas pesquisas, e ele não pode baixar mais.”

Louault ressalta que as duas próximas semanas serão decisivas para a estabilização dos números. Até lá, Aécio ainda pode reorganizar as estratégias de comunicação e até as propostas – mas não tem direito ao erro. “Ele ainda tem chances, porque a exposição midiática da Marina Silva vai baixar um pouco e as alianças partidárias, tanto do PT quanto do PSDB, vão se consolidar”, ressalva.

“Aécio está sem alternativas”

Já a cientista política Sônia Fleury, da Fundação Getúlio Vargas, avalia que as chances de o tucano passar para o segundo turno hoje são mínimas: Aécio nunca conseguiu abrir uma grande vantagem em relação a Dilma e agora perdeu a margem que lhe garantia a presença no final da eleição.

“Ele tem tentado colar a marca da gestão dele em Minas Gerais, que eu acho que não tem tido efeito porque o coloca como um personagem local, e não nacional”, afirma. “Também não acho que ele vá bater na Marina, porque isso favoreceria a Dilma e, num segundo turno, as eventuais alianças com Marina ficariam mais difíceis. Ele está sem alternativas.”

Se confirmada, a ausência do PSDB no segundo turno das eleições presidenciais será histórica: desde 1994 que os tucanos participam de todas as disputas.
 

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