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Fato em Foco

Sob o risco de veto, governo socialista francês vive semana decisiva

Áudio 04:34
O primeiro-ministro francês, Manuel Valls, na Assembléia Nacional.
O primeiro-ministro francês, Manuel Valls, na Assembléia Nacional. REUTERS/Benoit Tessier
Por: Lúcia Müzell
9 min

Esta terça-feira (16) é um dia decisivo para o governo francês. O primeiro-ministro socialista, Manuel Valls, vai pedir o voto de confiança do Parlamento para o novo gabinete formado em agosto, em um meio a uma crise política dentro do próprio partido. Insatisfeitos com os rumos do governo, julgado liberal demais, dezenas de deputados da esquerda prometem não aprovar os novos ministros.

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A reprovação dos parlamentares aliados - entre os quais estão socialistas, comunistas e verdes - se daria pela abstenção na votação. Se o voto de confiança for rejeitado, o presidente francês, François Hollande, seria obrigado a dissolver a Assembleia Nacional e a convocar eleições legislativas antecipadas, com resultados provavelmente favoráveis à direita. Por isso, muitos analistas, como o cientista político Thomas Guénolé, consideram que Valls vai conseguir os votos dos dissidentes, mesmo que seja de última hora.

“Muitos deputados da esquerda perderiam o cargo de um dia para o outro. Que eu saiba, os perus não votam a favor do Natal, então os deputados farão de tudo para que o voto de confiança seja aprovado no limite, mas seja aprovado”, avalia.

Ainda que isso ocorra, a fragilidade da maioria parlamentar do governo socialista é inegável. A divisão é causada pelas profundas divergências, entre o campo socialista, sobre a opção pela austeridade pelo presidente Hollande e a redução das políticas sociais. Guénolé observa que a situação é delicada e já aconteceu no passado.

“Isso já aconteceu, no governo de Michel Rocard, de 1988 a 1991. É uma situação na qual o governo tem a maioria relativa, mas não tem a maioria absoluta. Ou seja, você tem o apoio da maioria dos deputados, mas ela não é suficiente para aprovar projetos sem reforço”, explica. “Manuel Valls ainda não está nessa situação. Se ele excluir os deputados que se absterão das votações, ele manterá a maioria absoluta dos votos válidos. É uma situação-limite, a um triz de não ter mais a maioria.”

Governo sem rumo

O cientista político Stéphane Rozès, presidente do escritório CAP (Conseil, Analyses et Perspectives) e professor da Sciences Po, em Paris, destaca que os dissidentes querem pressionar o governo a diminuir o aperto fiscal, mas não propõem alternativas para tirar a França da crise econômica. A confusão impacta a popularidade do presidente e do primeiro-ministro, que não param de despencar nas pesquisas.

“Ao contrário do que muita gente pensa, eu acho que a falta de confiança no governo não é resultado apenas da situação econômica, mas da falta de visão. É isso que provoca a desconfiança dos franceses sobre o futuro e explica a rejeição de muitos cidadãos às reformas e ao fato de que os empresários não estão investindo na França”, ressalta. “O presidente não consegue dizer para onde ele conduz a França.”

Fim de um ciclo

Thomas Guénolé avalia que o cenário de incertezas já ocorria nos últimos anos do mandato de Nicolas Sarkozy e só se intensificou. Para o analista, se o ex-presidente conservador tivesse permanecido no cargo, provavelmente estaria passando pelos mesmos problemas que Valls e Hollande. O professor sustenta que o país enfrenta um momento crucial de mudanças no sistema social, em vigor desde o pós-guerra.

“Nós chegamos ao fim deste modelo político, econômico e social. O modelo dos chamados Trinta Anos Gloriosos chegou à falência, pura e simplesmente. É o fim de um ciclo e de um sistema, e as dificuldades do governo de Manuel Valls são apenas um epifenômeno em uma sequência histórica muito mais profunda”, sublinha. “Como vai ser a França de amanhã? Honestamente, não sei. Esse é o grande confronto político, econômico e social de hoje, entre um modelo fundado no livre comércio e outro, no protecionismo”.

Para ele, apenas um governo de união nacional, com a participação dos principais partidos, conseguiria avançar nas reformas que o país precisa para se recuperar da crise.

 

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