Mostra Kamasutra em Paris revela espiritualidade e erotismo na arte indiana

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Cartaz da exposição Kamasutra na Pinhacothèque de Paris
Cartaz da exposição Kamasutra na Pinhacothèque de Paris pinacotheque.com

O Kamasutra é uma das obras literárias mais conhecidas e míticas da história, ao lado da Bíblia, do Corão e de As Mil e uma Noites. Mas essa fama é um tanto distorcida, pois o Kamasutra foi constantemente mal interpretado e incorretamente apresentado como espécie de guia de posições sexuais. No entanto, a obra é muito mais que isso, como mostra a exibição “O Kamasutra – Espiritualidade e Erotismo na Arte Indiana”, que está em cartaz na Pinacoteca de Paris.

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Escrito em sânscrito por volta do século 4 por um filósofo indiano, o Kamasutra só chegou ao ocidente em uma versão em inglês no século 19. O hinduísmo é composto por quatro pilares fundamentais que correspondem às diferentes fases da vida. O Kamasutra é o terceiro passo, que chega depois da primeira fase de aprendizado moral e ético e da segunda, de conquista profissional e material. Ou seja, é o período adulto do homem, quando ele se conscientiza de sua vida interior, da força de seu corpo e do espírito. Só depois disso ele está pronto para alcançar o último pilar, o da graça absoluta, o êxtase religioso e a compreensão universal.

“A obra é um tratado sobre a vida”, explica Alka Pande, historiadora da arte e curadora da mostra. “Muitas pessoas, não só ocidentais, mas na Índia também, não sabem que o Kamasutra não é apenas um livro, mas uma obra que contém sete livros.” O primeiro, explica a curadora, trata de virtudes e de uma vida plena. O segundo é sobre posições sexuais. O terceiro dá conselhos para cortejar uma mulher. O quarto tem como tema o casamento. O quinto ensina a seduzir a mulher do outro. O sexto trata das cortesãs. Finalmente, o sétimo, é sobre afrodisíacos.

Manual de sexo

“Mas as pessoas só presta atenção ao segundo livro, de posições sexuais”, lamenta Alka Pande. “É texto que é muito mal interpretado, que leva o Kamasutra a ser considerado quase como pornografia - então as pessoas guardam embaixo da cama, escondem em cofres, como se fosse algo proibido”, explica. “Mas na verdade é um livro sobre a vida e a mensagem mais importante é a necessidade de ter uma vida balanceada entre virtude, posses e desejo, ou seja, gratificação sexual – e é só através de um balanço entre esses três temas é que se alcança a salvação”.

A mostra na Pinacoteca de Paris é um mergulho na iconografia religiosa e espiritual da Índia, com esculturas, pinturas, objetos de rituais de vários séculos, desde os tempos medievais no país. A sensualidade e os corpos nus estão sempre presentes e a zoofilia e o homossexualismo, chamado de “terceiro sexo", são representados sem tabus. “O erotismo é uma parte muito importante da filosofia indiana, há esculturas eróticas em praticamente quase todos os templos”, completa a curadora.

Kamasutra no Brasil

No Brasil, o Kamasutra também tem o seu quinhão de popularidade, tendendo principalmente para o lado pornográfico. Mas em 2011, a editora Tordesilhas publicou a primeira tradução direta do sânscrito para o português do segundo livro do Kamasutra. Joaci Pereira Furtado, editor responsável, explica que, a princípio, o Kamasutra era um conjunto de regras de vida para um nobre, “com tempo para ler e desfrutar, algo só para privilegiados numa Índia com maioria de analfabetos e miseráveis”.

A exposição “O Kamasutra – Espiritualidade e Erotismo na Arte Indiana” fica em cartaz em Paris até 11 de janeiro de 2015.
 

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