“Sou uma pessoa do século 20 e tecnicamente velho”, diz Eduardo Jorge sobre sucesso nas redes sociais

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O candidato do PV à Presidência da República, Eduardo Jorge
O candidato do PV à Presidência da República, Eduardo Jorge @EduardoJorge43

O candidato à presidência Eduardo Jorge ( PV) tem menos de 1% das intenções de voto, mas se depender das redes sociais, ele já seria eleito no primeiro turno, neste domingo (5). Desde o início da campanha eleitoral, “Dudu”, como o médico sanitarista é chamado carinhosamente pelos internautas, apostou na estratégia para conquistar o eleitorado mais jovem, e se tornou o "presidente do Twitter."

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As respostas bem-humoradas do candidato a seus eleitores viralizaram na Internet e viraram febre nas redes sociais (veja abaixo). Eduardo Jorge assume, entretanto, que nunca foi um twiteiro inveterado. “Esta foi a forma que o PV viu de falar com o público mais jovem, que tem dificuldade e resistência na participação política”, explica o representante do PV. “O resultado tem sido extraordinário, principalmente para mim que sou uma pessoa do século 20, com uma idade tecnicamente de velho, e gosto de ler Romain Rolland (escritor francês, Nobel de literatura em 1915) e livros de mil páginas! Foi o pessoal mais jovem do partido que me sugeriu, me recomendou, me empurrou para essa estratégia e felizmente ela deu resultado.” O candidato também explica que essa foi “uma maneira de encarar uma campanha com um tempo de 01’04” três vezes por semana, diante de outros que possuem um ‘latifúndio de tempo’”. Foi também no Twitter que ele criticou a declaração homofóbica do candidato Levy Fidelix, durante o debate da Record. Confira a entrevista que Eduardo Jorge concedeu com exclusividade à RFI.

RFI - O senhor teme que os eleitores não levem suas propostas a sério por conta desse tom descontraído nas redes sociais?

Eduardo Jorge – As redes têm esse aspecto lúdico e a gente tem que conviver com isso. Faz parte da alegria da juventude. E isso é uma coisa boa, faz bem para a saúde. Nossa postura é sempre tentar estimular as pessoas a lerem o programa e fazer com que elas percebam que administrar um país ou uma cidade tem complexidade. Não existem medidas mágicas e salvadoras. Temos estimulado e, a partir desse primeiro contato, as pessoas em se interessando pela complexidade da política. Soluções mágicas, só os demagogos e autoritários que acenam para o povo.

RFI - Depois da declaração homofóbica do candidato Levy Fidelix no debate da Record, o jornal "The Guardian" criticou o fato dos candidatos “nanicos” terem o mesmo tempo debate do que os outros. O que pensa disso?

EJ – É uma opinião muito própria dos ingleses, que se recusam a mudar o sistema distrital público e esmagam as minorias no seu país.

RFI - No debate da Record, o senhor, que é médico sanitarista, usou justamente o exemplo do sistema inglês de saúde, que é centralizado no clínico-geral, como é o caso também da França. Essa é uma das saídas para melhorar a situação no SUS?

EJ – Eu sou um dos autores quando houve a Constituinte Democrática de 87 e 88, do debate sobre a Seguridade Social e um dos criadores do SUS, que trouxe o direito à saúde para dois terços da população brasileira. Quando nós discutimos isso, o sistema inglês já era um paradigma e um modelo. Um dos pilares desse sistema é justamente ter uma estrutura de clínicos gerais muito bem formados, com uma população adscrita. As pessoas conhecem seu médico e isso é um fator de humanização da saúde e de racionalização orçamentário. A estrutura de atendimento é mais simples, porque o clínico-geral é o especialista dos especialistas, entende de gente, de homem, mulher. Especialista de pulmão entende de pulmão, de ponta de orelha entende de ponta de orelha. Um clínico-geral consegue resolver de 60 a 70% dos casos, o que é um fator de racionalizador orçamentário do sistema de saúde. Esse é o modelo que eu vejo como necessário para o Brasil. 

RFI - Além da própria rede de atendimento, o que precisa ser melhorado?

EJ - Existem três questões essenciai. A primeira é a multiplicação dos recursos, que são insuficientes. Em segundo lugar, a promoção da saúde. Precisamos de alimentação sem veneno. A alimentação brasileira aumentou em quantidade, mas a qualidade é péssima. A quantidade de agrotóxicos que chega na mesa do brasileiro vai comprometer a saúde a longo prazo. A quantidade de gordura, sal, o controle de excesso de açúcar pra ter mais saúde, menos doença, mais qualidade de vida e menos pressão no orçamento da Saúde. Sem contar o transporte e a energia, além da questão da mobilidade. A poluição, segundo um estudo recente da Faculdade de Medicina de São Paulo, mostrou que mais de um milhão de pessoas foram vítimas de infarto no Brasil causado pela poluição.

RFI – O senhor defende propostas como a legalização do casamento gay e do aborto, leis que já existem em países mais desenvolvidos, como é o caso da França. Na sua opinião, por que essas proposições parecem tão ousadas e difíceis de serem aceitas no Brasil?

EJ - Por causa da covardia das nossas lideranças políticas de direita e de esquerda! Porque existem na população, em geral, ideias religiosas e alguns preconceitos. Agora, qual é o papel das lideranças políticas, seja ela mais de direita ou de esquerda, mas que tenha uma visão de dados, de elementos, de dados de saúde pública? É mostrar como essa postura, que é majoritária na população brasileira, vem prejudicando a vida e segmentos de pessoas da nossa população. Uma mudança para uma posição mais racional e mais liberal proporcionaria uma melhoria na saúde da mulher por um lado e uma melhoria na qualidade da vida de pessoas, caso do casamento gay, que a única coisa que querem é viver em paz a sua livre orientação sexual, que em nada, absolutamente nada, interfere na minha opção, que não é a deles. Então é puro preconceito, pura ignorância. No caso da saúde da mulher, os índices ligados à interrupção clandestina é uma calamidade, é uma crueldade, é uma lei machista, reacionária e retrógrada, e a população precisa saber, que, com legalização, na verdade você vai diminuir o número de interrupções da gravidez.

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