Caso de Ebola na Espanha aumenta temor até nos Estados Unidos

Áudio 04:35
Cinegrafista que foi contaminado pelo vírus Ebola foi internado em um Hospital do Nebraska.
Cinegrafista que foi contaminado pelo vírus Ebola foi internado em um Hospital do Nebraska. REUTERS/Sait Serkan Gurbuz

Uma semana depois de Thomas Duncan, de 42 anos, ser o primeiro paciente diagnosticado com Ebola nos EUA, em Dallas, no Texas, os funcionários do serviço de emergência de Nova York, o famoso 911, incluíram uma nova pergunta no questionário obrigatório para os que ligam se queixando de dores no corpo, febre e vômito: “Você esteve no Oeste da África nas últimas três semanas? Se por lá esteve, entrou em contato com alguém comprovadamente contagiado pelo vírus Ebola?”.

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Eduardo Graça, correspondente da RFI, em Nova York,

Pânico talvez seja, ainda, um exagero, mas a preocupação é inegavelmente crescente. Embora o vírus tenha matado centenas de profissionais da saúde na África Ocidental, as autoridades médicas dos EUA seguem assegurando à população que o país fez seu dever de casa e se preparou para o combate ao Ebola.

O governo garante que o Ebola será combatido sem perdas humanas. Mas o caso da enfermeira espanhola, confirmado na segunda-feira (6), deu fôlego às vozes que batem na mesma tecla: “estamos à espera do novo Thomas Duncan, que pode vir no próximo voo”.

A confirmação do primeiro caso na Espanha aumentou a insegurança dos americanos. O país europeu é considerado um exemplo de rigor no controle de doenças infecciosas. A enfermeira, cujo nome não foi revelado, havia cuidado do padre Manuel García Viejo, que morreu no último dia 25, depois de ser infectado em Serra Leoa.

O sacerdote só ficou internado por três dias e a administração do Hospital Carlos III, em Madri, garante que a enfermeira entrou no quarto do paciente apenas duas vezes, uma delas depois da morte de Viejo.

Como disse a porta-voz do Centro de Controle de Doenças Contagiosas dos EUA, o CDC, “qualquer lapso no controle rigoroso da infecção pode colocar as pessoas em risco”.

Texas não é África

A população americana ficou ainda mais preocupada ao saber os detalhes do caso do Thomas Duncan. Ele avisou que havia acabado de voltar de uma viagem à Libéria e, mesmo assim, foi liberado para voltar para a residência da namorada, cidadã americana.

O resultado foi o estabelecimento de uma quarentena com apoio militar no bairro em que ela vive e a disseminação do medo na cidade texana de 1 milhão de habitantes. Em coletiva de imprensa na segunda-feira, autoridades locais lembraram que não há o mesmo nível de pobreza no Texas que na África Ocidental e que os recursos médicos também não podem ser comparados.

Mas, enquanto Duncan luta pela vida em um hospital de Dallas, vozes na direita pedem a suspensão imediata de vôos oriundos da Libéria, Serra Leoa e Guiné e atacam o CDC, e, por tabela, a administração Obama, que, de acordo com a oposição, teria sido negligente com a população.

A repercussão deixa claro que o Ebola virou um tema político. Em novembro, os americanos vão às urnas para renovarem a Casa dos Representantes, equivalente à Câmara dos Deputados no Brasil, e um terço do Senado. Este último tem grandes chances de passar para as mãos dos republicanos, que já controlam a Câmara Baixa do Poder Legislativo.

Se isso acontecer, os dois derradeiros anos do governo Obama serão muito mais complicados. O problema para os democratas é que as características desta deflagração do Ebola dão mesmo margem a mais preocupações. É que esta é a primeira deflagração do vírus que não se restringe a áreas rurais.

Isolamento é melhor prevenção

O Ebola tem um índice de mortalidade estimado em 90% e não existe vacina capaz de conter o vírus. Profissionais da saúde concordam que a única reação possível é o isolamento dos infectados e o monitoramento daqueles que tiveram algum contato com os enfermos.

Acredita-se que Duncan, por exemplo, tenha se infectado na Libéria depois de ajudar a vizinha a entrar em um táxi e acompanhá-la até um hospital. Ele entrou nos EUA por Washington, onde um outro cidadão, vindo da Nigéria, foi colocado em isolamento por suspeita de ter contraído o vírus.

O mesmo aconteceu com outro passageiro, vindo da Bélgica e que entrou nos EUA por Newark. É o que o “New York Times”, o diário mais influente dos EUA, classificou de “epidemia do medo”. Mais de 100 suspeitas foram anunciadas pelo CDC nos últimos dias e pelo menos 15 pessoas foram testadas, todas com resultados negativos.

O vírus já é responsável pela morte, de acordo com estimativas da Organização Mundial da Saúde, de mais de 3.400 pessoas, em sua quase totalidade em solo africano.
 

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