Vencerá o segundo turno no Brasil quem convencer que quer realmente mudar as coisas

Áudio 05:10
Dilma Rousseff (PT) e Aécio Neves (PSDB) começam a disputa pelo segundo turno com um primeiro debate dia 14 de outubro de 2014.
Dilma Rousseff (PT) e Aécio Neves (PSDB) começam a disputa pelo segundo turno com um primeiro debate dia 14 de outubro de 2014. Ichiro Guerra/ Dilma 13/Orlando Brito/ Coligação Muda Brasil

As urnas falaram. Velho chavão. O Brasil fez uma demonstração espetacular de que é uma das grandes e mais modernas democracias do mundo. Aonde é possível ter os resultados finais para 140 milhões de eleitores em apenas três horas – e sem que nenhum partido reclame de fraudes? Porém, não é o caso para ufanismos excessivos. Voto há, mas serve para alguma coisa?

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Nesse primeiro turno, as oposições demonstraram que juntas eram amplamente majoritárias. Mas na largada do segundo turno, e tendo em vista as possibilidades de transferência dos votos de Marina Silva, há empate técnico entre Dilma e Aécio. O Brasil está dividido entre os que querem mudanças sem mudar o governo e os que querem mudanças mudando o governo. Ganhará quem convencer o eleitorado que quer realmente mudar as coisas. Mas, por favor, sem dor! Será?

Não há mais saída sem dor

Na verdade, o modelo do sucesso brasileiro, lançado por Fernando Henrique Cardoso e ampliado por Lula, bateu na parede. A receita era clara: estabilidade e previsibilidade da política econômica, venda de soja e ferro para a China a preços estratosféricos, e com esse dinheiro, distribuição de bolsas famílias e de créditos públicos para os consumidores e grandes setores industriais. O apetite da China por matéria prima financiava – via bancos estatais – o crescimento de um dinâmico mercado interno que atraia os capitais estrangeiros indispensáveis para alimentar a máquina. O crescimento era forte sem ter que se preocupar com a modernização e a competitividade do aparelho produtivo e do país. A crise financeira mundial, com os preços do ferro e da soja despencando, acabou com esse carnaval.

Dilma herdou um Brasil em declínio. Mas em vez de mudar de rumo, foi pé na tábua. Mais do mesmo, mas sem ter meios para isso. Resultado: inflação, “pibinho”, desindustrialização e primeiras consequências negativas para o emprego. Não há mais saída sem dor. Vai ter que se investir na modernização das infraestruturas, na educação, na saúde e nos transportes, e também na eficiência da administração pública.

Mas com o Estado endividado até o pescoço isso só é possível dando mais poder à iniciativa privada e à sociedade civil, promovendo uma mentalidade de competição e a abertura à concorrência internacional. É pisar em muito calo dos que estão no poder e setores apadrinhados.

Dilma e o PT não têm vocação para sacrifício. A visão é reforçar um capitalismo de estado, controlado pelo governo e o partido, financiado com o futuro dinheiro do pré-sal. O problema é que o petróleo já vem tarde: a grande revolução mundial da economia digital e do meio-ambiente – sem falar no gás e óleo de xisto americanos – estão quebrando os preços dos hidrocarbonetos. A exploração do pré-sal pode tornar-se cara demais antes mesmo de começar seriamente.

Será que Aécio quer peitar o clientelismo do sistema político?

Aécio e o PSDB têm os quadros, as ideias e suficiente base política para tentar resolver esse dilema. Mas se estão dispostos a pisar nos calos da elite petista que se agarra ao poder, será que também querem peitar o tradicional clientelismo fisiológico do sistema político e das elites empresariais nacionais?

Para tirar o país do buraco, um governo Aécio vai ter que mobilizar os anseios da “nova classe média” que emergiu nos últimos anos. Ele precisa de uma força política moderna para enfrentar tanto o capitalismo de estado petista quanto o capitalismo de compadrio de sempre. Só que essa classe média urbana emergente, mais bem educada e informada, e diretamente conectada e mobilizada pelas redes sociais, não vai se contentar com presentinhos e assistencialismos. Ela quer participação e poder.

A boa administração econômica vai, portanto, depender não só de uma verdadeira reforma política, mas também de uma mudança radical nas práticas políticas. Não sabemos se o PSDB, que não conseguiu renovar os seus quadros dirigentes há mais de vinte anos, será capaz de convencer. Eduardo Campos e Marina entendiam essa exigência de renovação política profunda. Nas próximas três semanas, saber quem pode captar e representar essa herança será o maior desafio do segundo turno.

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