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Encontro entre cineasta e exilado da ditadura marca Festival de Cinema em Paris

Áudio 05:35
A diretora Emília Silveira conversa com a plateia depois da exibição de seu filme, "Setenta"
A diretora Emília Silveira conversa com a plateia depois da exibição de seu filme, "Setenta" RFI Brasil
Por: Taíssa Stivanin
10 min

Um encontro inesperado marcou a pré-estreia do Festival de cinema Brésil en Mouvements, que começou nesta quarta-feira (8) e vai até o próximo dia 12 de outubro em Paris. Convidada para apresentar seu documentário "Setenta", que narra a história de 18 sobreviventes dos anos de chumbo da ditadura brasileira, a jornalista e diretora Emília Silveira encontrou por acaso na plateia um companheiro de prisão, o sociológo e ex-militante Jáder Cunha Neves.  

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Os dois estiveram presos na mesma época na sede da polícia do exército no Rio de Janeiro há cerca de 40 anos, e, desde então, nunca mais tinham se visto. A diretora brasileira participou de um debate com a plateia depois da exibição do documentário, mas não reconheceu imediatamente o ex-militante da Ação Popular e do PCB. No final da projeção, o sociólogo contou que foi um dos setenta brasileiros enviados ao Chile em troca da libertação do embaixador suíço Giovanni Enrico Bucher, sequestrado por militantes da luta armada, em novembro de 70.

O filme da cineasta narra justamente a trajetória de alguns desses militantes e o que ocorreu com eles depois do exílio. Com o golpe militar de Augusto Pinochet no Chile, Jáder e os outros tiveram que fugir para outro país, em 1973. Desde então, o sociológo vive exilado na França. A emoção tomou conta da sala quando Emília identificou o companheiro, e descobriu que ambos tinham passado pela mesma prisão nos porões da ditadura.

“É uma emoção muito grande encontrar com ele aqui, é muito emocionante”, disse com lágrimas nos olhos. Este filme está me dando coisas que eu sozinha jamais conseguiria”, declarou. “Nós nos conhecemos na polícia do Exército, o pior lugar, de tortura. A mulher dele, Ângela, ficou comigo em um alojamento e nós nunca mais nos vimos, isso já tem 40 anos. Agora vamos continuar nos falando para não nos perdemos mais”, disse a cineasta.

As prisões arbitrárias e as torturas e maus-tratos se tornaram mais frequentes em 1968, quando foi instituído o AI5. O decreto do regime militar suspendia diversas garantias constitucionais e dava direito aos policiais, por exemplo, de prender qualquer cidadão, mesmo sem mandado judicial. O sociólogo brasileiro foi um dos militantes que sentiu na pele a violência do regime militar brasileiro. Ainda hoje, 40 anos depois, ele guarda as sequelas dos choques elétricos, do pau de arara, e de outras atrocidades que ele e milhares de outros militantes sofreram nas celas do DOPS, a polícia da ditadura, que começou em 1964.

Jáder Cunha Neves e a diretora Emília Silveira não se viam desde que se encontraram pela última vez nos porões da ditadura, há 40 anos
Jáder Cunha Neves e a diretora Emília Silveira não se viam desde que se encontraram pela última vez nos porões da ditadura, há 40 anos (RFI Brasil)

“Cheguei em 1973 na França com o primeiro grupo de refugiados latino-americanos. Eu tenho um certo pudor ainda para falar sobre certas coisas, mas agora está saindo. É muito emocionante. O Marcão foi um companheiro extraordinário. Vivemos uma porção de coisas no Chile e no Brasil”, disse o brasileiro. Marcão, ou Marco Maranhão, um dos integrantes do grupo enviado ao Chile, foi marido da cineasta e também dá seu depoimento no filme.

O documentário “Setenta” será exibido novamente em Paris, no próximo dia 10 de outubro, às 18h .

Festival comemora décima edição

O Festival Brésil en Mouvements, organizado pela associação Autres Brésils, criada pela jornalista Erika Campelo, entra em sua décima edição com uma programação de 25 documentários. “Temos um público cada vez maior, que aproveita a programação e os debates. E essa é a décima edição, um momento festivo para a associação”, diz Laura Boniface, representante da organização. Neste ano também temos curtas, sessões para crianças e uma retrospectiva, no domingo, e filmes importantes para o Festival desde 2005”, explica.
De acordo com Laura, o objetivo continua sendo destacar documentários sobre questões sociais e ambientais. Um pontos altos é o encontro com Divino Tserewahu, jovem cineasta Xavante, diretor de “O Mestre e o Divino.” Confira a programação completa aqui.
 

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