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Reportagem

“Foi como se outra pessoa estivesse no meu lugar”, diz Patrick Modiano sobre Nobel de Literatura

Áudio 05:52
O escritor francês Patrick Modiano durante a coletiva de hoje
O escritor francês Patrick Modiano durante a coletiva de hoje (Foto: RFI Brasil)
Por: Taíssa Stivanin
11 min

Foi com grande surpresa que o escritor francês Patrick Modiano, 69 anos, descobriu que era o laureado do prêmio Nobel de Literatura, anunciado nesta quinta-feira (9). “Eu estava andando na rua. Parece que não é verdade”, disse durante uma coletiva de imprensa concedida na sede da Gallimard, sua editora parisiense, no bairro de Saint-Germain des Près.

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O escritor é o 15° francês a receber o Prêmio Nobel da academia sueca, que o escolheu pelas histórias "que se constituem em variações de um mesmo tema, a memória da perda, a relação entre identidade e memória." Patrick Modiano tem 28 livros publicados e traduzidos em 36 línguas, inclusive o português. No Brasil, ele tem sete obras editadas, muitas com edições esgotadas. A histórias dos seus livros são em geral curtas, e se passam, na maior parte do tempo, na Segunda Guerra Mundial, em Paris.

Ao ser perguntado sobre como se sentiu ao ganhar o prêmio, Patrick Modiano parecia ainda não ter se dado conta. “Fiquei meio surpreso...e aí sai andando pela rua”, disse o escritor, balbuciando, e claramente pouco habituado aos flashes e à multidão de jornalistas que lotava a sala. Na sede da editora Gallimard, o clima era de euforia. “Não estavávamos preparados, ninguém esperava por esse prêmio”, confessou uma funcionária.

O escritor francês explicou que seu trabalho é “solitário”, concentrado em seus romances e histórias, e por isso ele demorou para perceber e aceitar que era ele mesmo que tinha ganho o Nobel deste ano."Não esperava mesmo por isso, para mim foi como se uma outra pessoa estivesse vivenciando a situação", declarou.

Contrariamente a alguns de seus conterrâneos, como Jean-Paul Sartre, vencedor do Nobel em 1964 que se recusou a receber o prêmio em Estocolmo, Patrick Modiano disse que estará presente à cerimônia. "Tenho uma ligação com a Suécia porque tenho um neto sueco, então isso me emociona ainda mais, e é preciso que eu me dedique a escrever o discurso, porque é seu país", disse.

Um escritor que vence um prêmio Nobel torna-se imediatamente mais popular. O último livro de Modiano, por exemplo, "Pour que tu ne te perdes pas dans le quartier", terá uma nova tiragem de 100 mil exemplares –o que pode ser considerado um recorde para o mercado editorial, segundo seu editor, Antoine Gallimard.

“Literatura francesa é infinita”, diz o escritor Milton Hatoum

O escritor brasileiro Milton Hatoum também se disse surpreso com a vitória de Patrick Modiano. Para ele, é natural que a França seja o país mais representado na história do Nobel de Literatura. “É um país com uma fortíssima tradição literária, desde o começo da Idade Média. É normal e esperado que um escritor de língua francesa ganhe o Nobel. Não há romance sem a França do século 19. Os grandes romancistas dessa época são franceses e russos. Então é normal que existam tantos laureados”, disse.

O escritor conta que leu apenas um livro de Modiano, “Acidente Noturno” (2003), e não pode comentar sua obra, mas certamente, diz, há outros escritores que mereciam levar a recompensa. Um exemplo é o poeta sírio Adonis, que revolucionou a poesia árabe do século 20, e era tido como um dos favoritos. “Há muitos escritores que poderiam ter ganho o Nobel e foram esquecidos, e são lidos até hoje, como Marcel Proust, Céline, o próprio Jorge Luis Borges, Júlio Cortázar, Guimarães Rosa, Carlos Drummond... há muitos injustiças quando se trata do Prêmio Nobel. A academia sueca nem sempre premia o melhor. Acho surpreendente Adonis não ter sido premiado e uma injustiça. Talvez o próprio Patrick Modiano acredite que não merecia o prêmio diz.”

Para ele, o Nobel é uma recompensa para europeus. “A nossa língua portuguesa e a política cultural do Brasil não colaboraram para a candidatura e Guimarães Rosa ou Carlos Drummond de Andrade. Guimarães Rosa não deve nada a nenhum escritor do Ocidente, assim como Drummond é um dos maiores poetas do século 20. Isso mudou nos últimos anos, a literatura brasileira vem sendo traduzida, estou falando dos ícones da literatura do século 20. A academia não está olhando para a África e a América Latina, mas para a Europa e os Estados Unidos”, resume.
 

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