Pesquisas de opinião de voto são realmente confiáveis?

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Depois das eleições do último domingo (5), muita gente acha que não. Isso porque algumas passaram longe dos resultados reais em diversos estados. O Rio Grande do Sul foi um deles. No sábado (4), o Ibope divulgou que o candidato ao governo, Tarso Genro, teria 40% dos votos, Ana Amélia, 31% e Ivo Sartori, 23%. Depois da apuração, no entanto, uma surpresa: Ivo Sartori, que deveria ser terceiro, de acordo com o Ibope, terminou em primeiro lugar.

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Taíse Parente, especial para RFI Brasil

Outros erros também foram constatados em diversos Estados, fazendo a população questionar a metodologia usada e a confiabilidade dos números. Será que poderia haver manipulação dos resultados?

A reclamação não é nova. No Congresso, há vários projetos de lei que tentam regular melhor o setor. As propostas são diversas e vão desde a proibição da divulgação de pesquisas, 15 ou 30 dias antes das eleições, até a obrigação de consultar um número mínimo de eleitores.

O medo dos políticos é que pesquisas às vésperas da ida às urnas possam influenciar os eleitores a fazer um voto estratégico, como explica o cientista político, Alexandre Golveia, professor da UNB: "Principalmente no Brasil, as pesquisas exercem o papel de induzir os indecisos e existe um efeito conhecido chamado 'voto útil' em que o eleitor não gosta de ter a sensação de perder o voto'.

Mudança de última hora

O professor de Economia do Insper, Otto Nogami, concorda. Para ele, essa tendência poderia explicar um maior sucesso de Aécio Neves nas eleições, já que as pesquisas vinham apresentando uma queda de Marina Silva na semana anterior ao voto. No entanto, as pesquisas não têm como levar em consideração eleitores que mudaram de opinião da noite para o dia, o que poderia explicar as divergências entre os resultados de domingo e as pesquisas divulgadas no sábado. "Estatisticamente falando, essas pesquisas são altamente confiáveis, você está partindo do pressuposto que aquilo que aquela pessoa está falando naquele momento é verdadeiro. O grande detalhe que essas intenções de voto não captam é essa possibilidade do eleitor, na data do pleito ou na proximidade do pleito, mudar de opinião".

Já o professor de economia do Insper, João Manuel Pinho de Mello, acredita que não houve um erro significativo por parte dos institutos de pesquisa. Ele afirma que normalmente a cada cem pesquisas, pelo menos cinco estão erradas. É o que os institutos chamam de "margem de confiança". No entanto, se houve mais erros do que o normal neste domingo, é possível que isso possa ser explicado pelas abstenções. Mesmos que os institutos já levem isso em conta nas amostras, se as abstenções forem maiores do que o esperado, elas podem se traduzir em erros na pesquisa.

Nos Estados Unidos, por exemplo, ainda que haja diversos métodos de pesquisa eleitoral, esse problema é ainda mais presente já que o voto não é obrigatório. "Nos Estados Unidos e na Europa, eles têm uma missão super difícil, que é a de adivinhar, não só para quem as pessoas vão votar, mas quem vai votar. No Brasil, pode estar começando a acontecer isso porque as pessoas começam a entender que o voto de fato não é obrigatório, já que a multa é muito baixa. Então, se a gente achava que abstenção no Nordeste ia ser 20% e foi 22%, isso fará com que a pesquisa tenha superestimado a Dilma em relação à oposição, porque o Nordeste tende a votar mais na Dilma".

Este ano, a taxa de abstenção foi de 19,4%. De acordo com dados do Tribunal Superior Eleitoral, o nível foi o mais alto desde 1998, quando o percentual de abstenções chegou a 21,5%.

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