Sob pressão, governo espanhol cria comissão para monitorar crise do Ebola

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A ministra da Saúde espanhola, Ana Mato.
A ministra da Saúde espanhola, Ana Mato. REUTERS/Andrea Comas

Sob pressão, o governo da Espanha anunciou nesta sexta-feira (10) a criação de uma comissão interministerial para monitorar a crise provocada pelas irregularidades constatadas no atendimento dos pacientes portadores do vírus Ebola. Continua grave o estado de saúde da enfermeira Teresa Romero, que se contaminou ao cuidar de dois religiosos mortos de febre hemorrágica em setembro.

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Luisa Belchior, correspondente da RFI em Madri

O primeiro caso de contágio do Ebola fora da África abriu uma crise no setor da saúde da Espanha e vem causando medo e incerteza entre a população da capital do país. Há denúncias de erros de protocolo por parte de autoridades sanitárias, o que levou médicos e enfermeiras a ameaçarem deixar seus postos caso o governo não garanta mais segurança aos profissionais.

A enfermeira Teresa Romero, infectada no hospital Carlos III de Madri ao tratar um paciente espanhol com o vírus repatriado de Serra Leoa, segue internada em estado grave, mas estável. Ela havia apresentado melhoras após ingressar no hospital, no início da semana, mas na quinta-feira teve problemas respiratórios e seu estado de saúde se degradou, segundo o hospital. Ao todo, 14 pessoas que tiveram contato com a enfermeira e os religiosos estão em observação no hospital Carlos III, embora ninguém apresente sintomas do Ebola, de acordo com o hospital.

Erro humano

No caso específico de Teresa Romero, a principal suspeita para o contágio é erro humano. Ela afirmou à imprensa que tocou o rosto sem proteção com uma das luvas que usou após entrar no quarto de um dos religiosos infectados. Porém, denúncias de enfermeiros e principalmente do médico Juan Manuel Parra, que fez o primeiro atendimento a Teresa Romero, levantaram a hipótese de falha no protocolo de segurança recomendado pela Organização Mundial da Saúde (OMS). Parra afirmou, por exemplo, que sua roupa de proteção era curta e deixava parte de seu braço exposto, o que aumenta o risco de contágio.

Uma reportagem do jornal "El País" afirmou ainda que a ambulância que transportou a enfermeira não tinha qualquer proteção específica para o transporte, além de ter buscado outros pacientes. Isso aumentou a revolta dos profissionais da saúde, que reclamam mais recursos ao governo e a demissão da ministra da Saúde, Ana Mato.

Governo espanhol endurece protocolo

O governo vinha negando qualquer falha, mas na tarde de quinta-feira a ministra Ana Mato anunciou revisões no protocolo de segurança para tratar casos de Ebola na Espanha. As normas, estabelecidas a partir de relatórios de uma comissão de profissionais da saúde criada de urgência, serão mais rígidas que as estabelecidas pela OMS.

Todos os profissionais de saúde que atenderem pessoas infectadas com o Ebola serão automaticamente considerados pacientes de risco e ficarão em observação. Além disso, passarão a ser casos suspeitos pessoas que apresentem febre mais baixa que 38,6ºC, o mínimo estipulado pela OMS para que se considere um possível caso de Ebola.

Tensão em Madri

Em Madri, há um clima de tensão e dúvida, embora não generalizado. Muita gente cancelou consultas e atendimento no hospital Carlos III, onde a enfermeira está internada. As ações de empresas de turismo que operam na bolsa de Madri tiveram baixas significativas, embora ainda não tenham reportado cancelamento de viagens à Espanha.

As autoridades sanitárias têm insistido que não há motivo para pânico porque os riscos de contágio são baixos. A contaminação do Ebola só se faz por contato direto com as secreções de uma pessoa contaminada, e particularmente na fase em que os sintomas estão bem desenvolvidos. Na fase inicial da doença, como a taxa viral no organismo é baixa, o risco de transmissão é menor. A doença torna-se mais contagiosa com o agravamento dos sintomas.

Ainda assim, as pessoas estão apreensivas em Madri, sobretudo porque a enfermeira infectada circulou livremente, durante vários dias, após contrair o vírus. O governo afirma que já identificou todas as pessoas com as quais ela teve contato. A prefeitura de Madri também disponibilizou um número de telefone para tirar dúvidas sobre o vírus ou ainda relatar casos suspeitos.

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