Acessar o conteúdo principal
O Mundo Agora

Acuada pelos curdos e jihadistas, Turquia fica em cima do muro

Áudio 04:54
Turcos curdos na cidade de Suruc, da província turca de Sanliurfa, observam os bombardios em Kobane, na Síria.
Turcos curdos na cidade de Suruc, da província turca de Sanliurfa, observam os bombardios em Kobane, na Síria. REUTERS/Umit Bektas

A cidade curda de Kobane, na fronteira entre a Turquia e a Síria, está virando uma pequena Stalingrado. O governo turco de Recep Erdogan está entre a meia lua e a caldeirinha. A batalha de Kobane, como o assédio da cidade russa durante a Segunda Guerra Mundial, vai ser decisiva para o futuro da verdadeira guerra contra os terroristas do dito “Estado Islâmico” ou Daesch, em árabe.

Publicidade

Se Kobane cair nas mãos dos radicais islâmicos, estes controlariam uma das três regiões curdas que lutam pela independência contra o regime sírio de Bachar al-Assad e também uma boa parte da fronteira com a Turquia. Essa vitória abriria o caminho para mais contrabando de petróleo, maior fonte de financiamento do grupo Estado Islâmico, e consolidaria as comunicações entre os principais territórios ocupados pelo Daesch.

Não é por nada que os combatentes curdos, quase sem armas, estejam decididos a lutar até o fim. E que a coalizão de forças ocidentais e árabes, que tentam reverter os avanços dos radicais islamitas na Síria e no Iraque, estejam concentrando os bombardeios aéreos nessa pequena cidade. Sem essa chuva de bombas americanas, sauditas e dos Emirados, Kobane já teria caído. Mas não poderá resistir por muito tempo, se não vierem armas e homens para reforçar os defensores curdos.

Ancara contra a parede

A Turquia está de encontro à parede. Kobane está tão perto da fronteira que uma pequena multidão de refugiados e curiosos pode assistir aos combates de camarote. Ancara está impedindo pela força a transferência de armas e que voluntários curdos possam ir ajudar seus irmãos do outro lado. Só que os dirigentes turcos também estão preocupadíssimos com os avanços do Daesch ameaçando o sul do país. Em cima do muro, o governo Erdogan está submetido a pressões cada vez mais fortes para intervir diretamente contra os terroristas.

Mas por que esse vai não vai? Primeiro, para Ancara, os curdos da Síria são considerados – por enquanto – como inimigos mais perigosos que os radicais do grupo Estado Islâmico. Segundo, os militares turcos não veem nenhuma razão para invadir o norte da Síria quando as potências ocidentais e seus aliados árabes não querem nem ouvir falar disso.

O medo dos dirigentes turcos é que os combatentes curdos nessa região são afiliados ao Partido dos Trabalhadores do Curdistão (o PKK), o grande movimento independentista dos curdos turcos que Ancara combate ferozmente há décadas. Nos últimos anos, Erdogan vem tentando uma negociação com o PKK para ver se resolve o problema de maneira pacífica. Portanto, ele não tem a mínima intenção de aumentar o poder de fogo dos curdos.

Só que enquanto isso, Kobane pode cair, o que seria uma catástrofe para a segurança turca, com a barbárie terrorista na fronteira e uma onda de ódio curda que não perdoaria que a Turquia tenha impedido a ajuda aos seus combatentes. Aliás, o PKK já anunciou que estava decidido a interromper as negociações com o governo se ele mantivesse essa atitude – e, claro, com todos os problemas que tem hoje, Erdogan não está a fim ter que recomeçar uma guerra civil interna com o PKK.

Os turcos não querem assumir sozinhos o papel de soldadinhos da coalizão árabe-ocidental e já declararam que não enviariam nem conselheiros militares ao território sírio. Eles também não têm nenhum apetite para intervir e ainda por cima sem o aval da ONU (já que os russos, que armam e apoiam o regime de Bachar al-Assad, usariam o seu direito de veto no Conselho de Segurança).

A proposta turca é treinar e armar a oposição síria, laica e islâmica moderada, que está enfrentando os massacres de Assad, inimigo figadal de Erdogan, para que ela possa também combater o Daesch. O problema é que não há consenso dentro da coalizão árabe-ocidental sobre como tratar o governo de Assad e o que fazer com a Irmandade Muçulmana, fortemente representada na oposição síria, que é apoiada pelos turcos mas rejeitada pela Arábia Saudita e os Emirados.

Enquanto uns e outros jogam seus joguinhos táticos, os bárbaros do grupo Estado Islâmico continuam massacrando, cortando cabeças e ameaçando a região inteira.

* Alfredo Valladão, do Instituto de Estudos Políticos de Paris, escreve às terças-feiras para a RFI

NewsletterReceba a newsletter diária RFI: noticiários, reportagens, entrevistas, análises, perfis, emissões, programas.

Página não encontrada

O conteúdo ao qual você tenta acessar não existe ou não está mais disponível.