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Reportagem

Megaoperação contra ilegais na Europa atinge brasileiros

Áudio 05:27
Ilhas italianas do Mar Mediterrâneao são uma das pricipais rotas de imigração.
Ilhas italianas do Mar Mediterrâneao são uma das pricipais rotas de imigração. AFP PHOTO / MARINA MILITARE
Por: Gabriel Brust
11 min

Passaram-se oito meses entre a compra da passagem de avião e o desembarque do garçom mineiro André, de 37 anos, no aeroporto Charles de Gaulle, em Paris. Mas bastaram apenas vinte minutos para que ele fosse barrado pelo serviço de imigração francês e deportado no primeiro voo de volta ao Rio de Janeiro, na última segunda-feira (13). André foi possivelmente a primeira vítima brasileira de uma megaoperação europeia de “caça aos imigrantes ilegais”, como está sendo chamada pela imprensa, e que teve início na mesma segunda-feira.

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Assim como muitos brasileiros, André pretendia passar os três meses a que todos têm direito como turista e depois seguir trabalhando. Foi surpreendido com um rigor acima do normal na fiscalização do aeroporto. “Fui muito mal orientado sobre o que levar, qual documentação. Achei que seria simples apenas falar que ia passar uma ou duas semanas. Mas não tiveram nenhum tipo de jogo de cintura, me botaram no primeiro voo depois de vinte minutos de conversa. Foram bem claros: disseram que a França agora vai ser pior que os Estados Unidos”.

A operação, encabeçada pelo governo italiano e batizada de "Mos Maiorum", está sendo realizada em 32 países e mobilizando 18 mil policiais em todo o continente. O objetivo é não apenas identificar ilegais, mas coletar informações sobre as suas rotas de chegada e, dessa forma, combater os coiotes, como são chamados os atravessadores. Uma operação parecida, em 2012, levou à prisão ou deportação de 5,3 mil pessoas em toda a Europa.

Alerta nas redes sociais

O mineiro deportado pretendia trabalhar como garçom na região sul de Paris, atraído pelo depoimento de outros compatriotas que leu na internet. A maior parte dos brasileiros ilegais vive na periferia da capital, trabalhando em restaurantes, com limpeza ou na construção civil. Há também uma forte integração com os portugueses, que formam a maior comunidade de estrangeiros na França, ao lado de argelinos e marroquinos. Os brasileiros costumam trabalhar no comércio português e até mesmo utilizar carteiras de identidade falsas do país ibérico. Embora a comunidade brasileira não esteja entre as maiores – estima-se os legais em cerca de 25 mil –, os brasileiros foram os estrangeiros mais barrados ao chegar na França em 2013, principalmente por falta de documentação mínima.

Desde que a operação "Mos Maiorum" foi lançada, no início da semana, há muita preocupação entre os brasileiros, que estão se articulando nas redes sociais e nos fóruns da internet para comunicar uns aos outros, em tempo real, onde está localizada a fiscalização. Segundo estes alertas, os fiscais estão operando principalmente nas estações de trens suburbanos. João, de 30 anos, relata que um amigo paraense, que vivia em Paris havia dois anos trabalhando como pedreiro, foi pego na Gare du Nord, a maior central de trens da França. Só teve tempo de mandar uma última mensagem ao amigo após ser preso pela Polícia Nacional.

De acordo com depoimentos na internet, há registro de pelo menos cinco brasileiros ilegais pegos até o momento. Alguns afirmam estar evitando sair de casa, até que a operação "Mos Maiorum" termine. O principal conselho disseminado entre brasileiros nas redes sociais é que os ilegais andem sempre com o bilhete de metrô, já que a maioria das abordagens começa pela fiscalização da passagem do trem e acaba verificando a identidade e o visto das pessoas. “Me abordaram na saída da estação, pediram documento, revistaram minha bolsa e fizeram perguntas. Fiquei muito nervosa, mas deu tudo certo”, conta uma participante de um desses grupos na internet. Outro, aconselha: “Para as pessoas que estão com medo do controle, é só não usar seu passaporte e falar bem francês”.

Operação é criticada

Caroline Intrand, da ONG belga "Coordination et Initiatives pour Réfugiés et Étrangers", diz que tanto a escala quanto a falta de transparência da operação impressionam: “Tememos que isso faça crescer ainda mais a confusão entre as ideias de imigrante e criminoso, e que agrave a visão sobre a imigração. Uma operação coordenada pela Europa é algo catastrófico. Isso assusta porque nos damos conta de que agora é um pensamento europeu, todos estão de acordo para dizer ‘é preciso fazer a caça aos ilegais’”.

Um dos objetivos da operação é interrogar os imigrantes para identificar os caminhos explorados pelos "coiotes". A pesquisadora Martine Vernier, co-autora do livro "Être Étranger en Terre d’Accueil", diz que os brasileiros e latino-americanos não se enquadram na categoria dos que são explorados por "coiotes", principal foco da operação: “No caso dos brasileiros, não é preciso visto, então, eles vêm, passam os três meses permitidos e ficam. O ‘coiote’, no caso, é a Air France. Ou seja, é legal. Mas a fobia por aqui é em relação à África Subsariana e aos países árabes. No caso da Síria, por exemplo, a Europa está sendo muito fechada.”

As ONGS que denunciam abusos contra imigrantes ilegais ainda aguardam um balanço da operação. A principal reclamação até agora é da falta de transparência das autoridades, que não estão fornecendo maiores informações sobre os trabalhos, que devem se estender até o próximo dia 26 de outubro.

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