Alternância de poder no Brasil poderia alterar relações com Venezuela

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Quem vencer as eleições de domingo no Brasil deverá manter a ter boas relações com a Venezuela (Na foto, a presidente Dilma Rousseff (PT) e o senador Aécio Neves (PSDB).
Quem vencer as eleições de domingo no Brasil deverá manter a ter boas relações com a Venezuela (Na foto, a presidente Dilma Rousseff (PT) e o senador Aécio Neves (PSDB). REUTERS/Paulo Whitaker

Um dos principais sócios comerciais do Brasil na região, a Venezuela vem acompanhando as eleições com bastante atenção. Mas será que uma possível alternância de poder vai mudar as relações bilaterais com aquele país? Vamos ver como diversos setores da sociedade venezuelana estão analisando cada um dos candidatos presidenciais.

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Elianah Jorge, correspondente da RFI Brasil em Caracas

Como o empresariado na Venezuela tem avaliado uma possível mudança na presidência do Brasil? Bem, de  acordo com Fernando Portela, diretor-executivo da Câmara de Comércio Brasil -Venezuela, o vizinho do norte continua sendo um parceiro de grande importância para o Brasil. Ele lembra que “o comércio venezuelano é forte, mas este ano houve uma queda nas importações. Quem quer que esteja na presidência do Brasil sabe que em determinados países os acordos serão mantidos. Tem sido assim desde o governo Fernando Henrique Cardoso. Agora com a presidente Dilma eles não se expandiram, mas houve a continuidade do que foi feito com Lula. Não haverá marcha à ré nas relações bilaterais. Só se houver uma forte incompatibilidade ideológica, mas é pouco provável que isso aconteça”. Portela destaca que em caso de alguma interrupção, a balança comercial - que privilegia o Brasil - seria gravemente afetada.

De acordo com especilistas, é muito provável que a economia venezuelana passe por mudanças em 2015. Fernando explica que “há uma pressão interna na Venezuela”, em referência ao desequilíbrio econômico que faz o país ter a maior inflação da região e agora com estancamento na produção. Porém, o peso político da Venezuela junto ao seu principal credor, a China, pode ter papel importante para o Brasil na hora de interceder junto ao recém-criado Banco dos BRICS, formado por Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul.

Visão dos setores ligados ao governo da Venezuela

Segundo o analista político e integrante do Partido Socialista Unido da Venezuela, Nicmer Evans, a possível saída de Dilma Rousseff da presidência pode reconfigurar o papel do Brasil no âmbito internacional, já que o candidato Aécio Neves é, segundo Nicmer, pró-Estados Unidos, o que representaria um esfriamento das relações Brasil-Venezuela. No entanto, ele destaca que durante o mandato da presidente Dilma houve um distanciamento nas relações diplomáticas bilaterais em comparação à época Lula-Chávez. 

De acordo com o Prêmio Nacional de Economia e ex-ministro da Indústria do governo de Hugo Chávez, Victor Álvarez, a relação entre ambos os países vem passando por um desgaste natural. “O governo venezuelano vai entrar em uma etapa difícil. Não está mais em condições de manter o ritmo econômico e por isso a agenda venezuelana estará mais centrada em temas internos”. Álvarez prevê que se o Partido dos Trabalhadores continuar por mais quatro anos no poder levará o Brasil a olhar mais para a parceria com os BRICS e com a China. “A Venezuela já não tem condições de oferecer acordos interessantes, pode manter esta relação que é antiga, mas que tende à inércia”.

Apoio venezuelano ao Brasil

O perfil pragmático do Itamaraty, que, em geral, não costuma se intrometer nos assuntos internos de cada país foi citado por todos os entrevistados. “O negócio é fazer negócio”, destacou o analista internacional e ex-cônsul da Venezuela no Brasil, Mario Guglielmelli. “O Aécio Neves é apoiado pelos grupos que fazem negócios. Mas ele poderia se manifestar de maneira contrária caso haja alguma mudança em relação à democracia, à questão dos Direitos Humanos por aqui”. A fragmentação ideológica pode significar um abalo, destaca o analista. Guglielmelli enfatiza que o candidato do PSDB está mais atento à Aliança do Pacífico (o bloco comercial formado por Chile, Colômbia, México, Peru e Costa Rica). Já a candidata do Partido dos Trabalhadores dá atenção ao Mercosul. Para o jornalista e ex-embaixador da Venezuela no Brasil, Vladimir Villegas, se Dilma Rousseff ganhar, as relações Brasil-Venezuela serão mantidas ou aprofundadas. “A presidente terá a mesma linha de cooperação política de iniciativas comuns como a Unasul (União de Países Sul-Americanos) e a Celac (a Comunidade de Estados Latino-Americanos e Caribenhos) em torno de temas internacionais. Segundo ele, a derrota de Dilma seria negativa também para outros países da região. Caso o candidato opositor ganhe, as mudanças não serão drásticas por causa dos acordos e investimentos. “Aécio pode alterar alguma coisa na cooperação econômica, tudo vai depender da atitude dele”.

Mídias e Brasil

Apesar do agitado noticiário local, o venezuelano tem se interessado pelas eleições no Brasil, afinal, o país é um dos grandes exportadores de produtos de primeira necessidade, além de fazer fronteira com o sul da Venezuela. Então, a imprensa tem dado atenção às presidenciais. O canal estatal Telesul desde o primeiro turno vem fazendo uma grande cobertura. Setores críticos apontam que o canal estaria fazendo também campanha para a candidata à reeleição ao apresentar o candidato opositor como “neoliberal”, entre outras classificações supostamente desfavoráveis. Meios de comunicação contrários à posição centro-direita criticam o candidato que tenta acabar com os 12 anos do governo petista no poder.

A comunidade brasileira com domicilio eleitoral em Caracas deu a maioria dos votos ao candidato do PSDB no primeiro turno destas eleições.

 

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