Analistas apontam parcialidade da imprensa nas eleições

Áudio 05:27
Reprodução das capas dos jornais

A cada eleição, uma polêmica está de volta no Brasil: a imprensa brasileira faz campanha por um dos candidatos? Ao contrário dos jornais franceses ou americanos, os brasileiros não costumam abrir o voto, uma decisão que não diminui os questionamentos dos eleitores sobre a imparcialidade dos veículos.

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Para tentar colocar em dados a cobertura da campanha pelo maior telejornal do país, o Jornal Nacional, e os três principais jornais impressos, Folha de S. Paulo, O Globo e Estado de S.Paulo, o cientista político João Feres Jr. criou o “manchetômetro”, um site que avalia diariamente as capas e manchetes desses veículos. O conteúdo é avaliado por pelo menos duas pessoas e classificado como "positivo", "negativo", "neutro" ou "ambivalente" para a imagem dos candidatos ou do partido. Os resultados mostram uma nítida preferência pelo candidato Aécio Neves, como explica o pesquisador do Laboratório de Estudos de Mídia e Esfera Pública, da UFRJ.

“O Estado de S.Paulo e O Globo estão em campanha aberta pelo Aécio. Eles publicam mais de 20 matérias contrárias à Dilma por semana. Eles publicam matérias favoráveis ao Aécio e pouquíssimas contrárias – na semana passada, ele tem três enquanto a Dilma tem 24, para se ter uma ideia”, constata. “A Folha de S.Paulo faz uma cobertura mais balanceada neste momento. Na semana anterior, o viés estava bem pronunciado contra a Dilma. E o Jornal Nacional está abertamente contrário a Dilma, com 14 matérias contrárias a ela e apenas uma contra o Aécio.”

Campanha de 1998

Para Feres, o argumento segundo o qual a imprensa é mais rigorosa com quem está no poder, seja qual for o partido, não se concretiza. O professor se baseia nos números do “manchetômetro” de 1998, quando o então presidente, o tucano Fernando Henrique Cardoso, tentava a reeleição contra Luiz Inácio Lula da Silva. O cientista político considera que aquela campanha e a atual refletem "a situação perfeita" para estabelecer uma comparação sobre o comportamento da mídia.

“A mídia brasileira ficou muito marrom. Seria normal bater em quem está no poder se a mídia se comportasse dessa maneira, mas não é o que ela faz”, afirma. “Para testar essa hipótese de que a mídia é contra o poder, nós analisamos a campanha de 1998. O resultado é que Fernando Henrique Cardoso, que era situação, teve muito menos matérias negativas do que o Lula e muito mais favoráveis do que o Lula. Ou seja, naquela situação, a mídia não foi contra o poder: foi chapa-branca.”

A pesquisadora Sylvia Moretzsohn, professora da Universidade Federal Fluminense (UFF), concorda que a chamada “grande imprensa” brasileira tem um lado – e nunca foi a esquerda.

“Nenhum desses jornais nunca foi de esquerda. O Estadão nem se fala, e O Globo muito menos. Em algum momento, a Folha representou esse anseio, em um caso específico, assim como ainda representa eventualmente”, ressalta, em referência à postura do diário durante a ditadura. “A ideia de que a imprensa é um contrapoder não se sustenta quando você analisa a situação concreta. A imprensa age em nome desse ideal, mas o que ela faz é outra história. Para uns, há uma fiscalização mais intensa e, para outros, mais frouxa, em função dos seus interesses.”

“Imprensa golpista”

Moretzsohn, colaboradora do site Observatório da Imprensa, destaca que, do outro lado, também há exageros. Ela se refere a blogs vinculados ao Partido dos Trabalhadores, que, segundo a pesquisadora, chegam a disseminar mentiras na tentativa de contrabalancear a imprensa tradicional.

“Eu acho que essa postura [dos principais jornais] não justifica qualquer tipo de crítica. Alguns setores da esquerda, ligados ao PT, dizem que há um partido da imprensa golpista. Isso é muito frágil, não se sustenta”, avalia a jornalista. “Os auto-intitulados blogs progressistas, com uma ou outra exceção, não são progressistas. Aquilo é simplesmente uma tropa de choque de propaganda. Mas não é possível a gente ignorar que a imprensa se apresenta deliberadamente como uma oposição, quando deveria ser, pelo menos do ponto de vista liberal, um jornalismo que vai relatar os fatos e apurá-los da melhor maneira possível, independentemente dos interesses.”

Demissão de colunista

O debate sobre a imparcialidade da imprensa voltou à tona na semana passada, quando o colunista de esportes Xico Sá, da Folha de S.Paulo, pediu demissão depois de não poder publicar uma coluna na qual declarava o voto em Dilma Rousseff. Como Moretzsohn, Carlos Eduardo Lins da Silva, ex-secretário de redação do jornal, acha que a Folha errou ao rejeitar a publicação do texto em seu espaço habitual.

O tema também levantou a questão da abertura do voto pelos jornais e emissoras. Para Lins da Silva, essa decisão não deve impactar na cobertura jornalística.

“Eu acho que é uma questão que não é importante do ponto de vista da qualidade do jornalismo. O New York Times sempre diz em quem ele acha que os eleitores devem votar, mas isso raramente contamina a cobertura, que é sempre crítica em relação a todos os candidatos”, compara. “O que eu acho importante não é o jornal emitir a sua opinião institucional. O importante é o jornal, ou emissora de televisão ou rádio, realizar a cobertura de uma forma crítica e sob a ótica do público, da sociedade.”

O livre-docente da USP considera a cobertura eleitoral “equilibrada” no Brasil. Para ele, há veículos orientados à esquerda assim como à direita, o que possibilita uma abordagem plural na mídia. Além disso, Lins da Silva avalia que a imprensa tem pouca influência na escolha dos eleitores.

“Não só o meu trabalho, mas os trabalhos de um número enorme de pesquisadores, mostram que a influência da imprensa é relativamente reduzida e, definitivamente, não é a imprensa que faz com que o eleitor vote por um ou outro candidato. São as propostas dos candidatos e como elas são entendidas pelos eleitores”, sublinha.

No Brasil, entre as principais publicações, apenas o jornal Estado de S. Paulo e a revista Carta Capital apoiaram um candidato – o primeiro preferiu o tucano Aécio Neves, e a segunda, a petista Dilma Rousseff.
 

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