Para jornais franceses, reforma política de Dilma desagradou mercados e Congresso

A presidente Dilma em sua primeira entrevista depois de reeleita, ontem, na TV Record.
A presidente Dilma em sua primeira entrevista depois de reeleita, ontem, na TV Record. Roberto Stuckert Filho/fotospublicas.com

A futura reforma política de Dilma Rousseff é destaque na imprensa francesa nesta terça-feira (28). Os jornais Le Figaro, Libération e Les Echos evocam as promessas feitas pela presidente após a vitória apertada contra o tucano Aécio Neves na eleição.

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Em seu discurso da vitória, Dilma declarou, ao lado do ex-presidente Lula, que havia compreendido o desejo de mudança manifestado pelo eleitorado brasileiro, diz Le Figaro. Depois das manifestações de junho, ficou evidente para a maioria dos observadores que, sem uma reforma política, o Brasil está condenado ao bloqueio, prossegue o jornal.

Le Figaro explica que a Constituição de 1988 é a mais extensa do mundo. O texto trata de assuntos econômicos, sociais e até esportivos, que impõem uma sucessão de decretos e leis de aplicação. Mas eles caducam rapidamente e para obter qualquer mudança constitucional, é preciso conseguir a aprovaçao de três quintos do Congresso, num sistema de tramitação interminável entre Câmara e Senado.

Ouvido pelo Le Figaro, o cientista político e jornalista André Singer, ex-porta-voz de Lula, professor da USP e colunista da Folha de S.Paulo, explica que a dificuldade do projeto de reforma política é que ela depende de aprovação do Congresso. Maiores beneficiados pelo sistema, os parlamentares não querem mudá-lo. A perspectiva de uma reforma política fica ainda mais sombria, nota Le Figaro, levando em conta que o Congresso recém-eleito é o mais conservador dos últimos 25 anos, dominado por lobbies e um mosaico de 28 partidos políticos.

Em sua análise sobre os desafios do novo mandato de Dilma, Le Figaro relata que forças progressistas também cobram uma reforma para democratizar a mídia. "Lula tentou, mas desistiu", conclui o jornal francês.

Mercados reagem mal à reeleição

Les Echos avalia a questão da confiança dos mercados no novo governo. Ontem, os investidores amanheceram de mau-humor com a reeleição de Dilma. A Bolsa de Valores de São Paulo e as ações da Petrobras despencaram, mas o ministro da Fazenda, Guido Mantega, atribuiu a oscilação à situação internacional. O povo, no Brasil, aprova a política econômica, disse Mantega.

Para Les Echos, a queda no Ibovespa reflete a decepção com o anúncio de reforma política feito por Dilma. Os investidores esperavam sinais fortes na área econômica, sobretudo uma reforma fiscal e medidas de saneamento das contas públicas. A política econômica do segundo mandato de Dilma é um grande ponto de interrogação, afirma Les Echos.

Libération se refere a uma vitória "dolorida" da presidente. A prioridade do novo mandato deve ser a economia. Descontando o índice de desemprego historicamente baixo, o resto da economia brasileira está no ponto morto, nota o diário. Os brasileiros rejeitaram o modelo de gestão liberal proposto pelo tucano Aécio Neves, mas serão, por outro lado, muito mais exigentes com o governo do PT, prevê Libération.

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