Anúncio de ampliação de colônias judaicas aumenta tensão em Jerusalém

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Tensão aumenta em Israel, provocada pela aceleração da construção de assentamentos judaicos nos territorios palestinos.
Tensão aumenta em Israel, provocada pela aceleração da construção de assentamentos judaicos nos territorios palestinos. REUTERS/Ronen Zvulun

O anúncio da aceleração da construção de mil casas em Jerusalém Oriental, feito pelo primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, aumentou a tensão em Jerusalém. A cidade sagrada tem vivido confrontos diários entre manifestantes palestinos e a polícia israelense.

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Daniela Kresch, correspondente da RFI em Israel

O primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu, anunciou na segunda-feira (27) que vai acelerar a construção de mil casas para judeus na parte árabe de Jerusalém, a Oriental, que é considerada pela comunidade internacional como capital de um futuro Estado palestino. A declaração foi feita durante a sessão de retomada das atividades do Knesset, o Parlamento de Israel, depois de um recesso de dois meses.

A construção dessas mesmas mil casas em dois bairros, Har Homa e Ramat Shlomo, já havia sido anunciada antes, em diferentes ocasiões. Por questões burocráticas, até agora nenhuma obra saiu do papel. Além disso, em setembro, o governo israelense anunciou a construção de outras 2.600 casas num terceiro bairro, Guivat Hamatos. Isso pode levar anos e leva muita gente em Israel a acreditar que se trata de anúncios políticos, não concretos.

Netanyahu afirmou que os judeus têm o direito de viver em qualquer parte de Jerusalém, até porque Israel reconhece a cidade como “unificada” desde os anos 80, contrariando a comunidade internacional. Desde a Guerra dos Seis Dias, em 1967, Israel controla Jerusalém Oriental e a Cisjordânia – onde moram 2,6 milhões de palestinos.

Pela lei internacional, o país não poderia construir casas para seus cidadãos em terras ocupadas. Na prática, no entanto, há atualmente cerca de 500 mil israelenses morando nesses locais, os chamados “colonos”.

Reações internacionais

Oficialmente, o Departamento de Estado americano condenou Netanyahu usando uma linguagem comedida. Mas, nos bastidores, a crise de confiança entre os governos de Barack Obama e Benjamin Netanyahu alcançou níveis nunca vistos na História do relacionamento entre Israel e Estados Unidos.

O respeitado jornalista americano Jeffrey Goldberg publicou no site da revista “The Atlantic” que um nome importante do governo americano chamou Netanyahu de “egoísta” e “medroso”, usando a expressão pejorativa em inglês “chicken shit”. A fonte da Casa Branca ainda teria afirmado que a administração Obama descreve Netanyahu como “birrento”, “míope”, “reacionário”, “obtuso”, “pomposo”, além de sofrer de autismo.

O líder israelense respondeu às acusações ontem no Parlamento, afirmando que tem sido atacado apenas por querer defender seu país.

Condenação do Conselho de Segurança

Na quarta-feira (30), o Conselho de Segurança da ONU condenou o anúncio de aceleração de obras em Jerusalém Oriental em reunião de emergência pedida pela Jordânia em nome dos palestinos.
Durante a sessão, o subsecretário-geral para Assuntos Políticos das Nações Unidas, Jeffrey Feltman, disse que o secretário-geral, Ban Ki-moon, está “alarmado” com os planos ligados às obras em Jerusalém Oriental. Segundo ele, a expansão dos assentamentos colocaria “em dúvida as intenções de Israel de negociar uma paz duradoura com os palestinos”.

Em resposta, o embaixador de Israel da ONU, Ron Prosor, disse que a comunidade internacional atua com “hipocrisia” ao condenar Israel por querer construir casas para seus cidadãos e se manter calada quando israelenses são atacados por palestinos na cidade.

Durante a sessão, Jeffrey Feltman se mostrou preocupado com os recentes confrontos em Jerusalém que, para ele, só pioram com os anúncios de obras na parte oriental da cidade.

Tensão em Jerusalém

Jerusalém está pegando fogo, com confrontos diários entre palestinos, que representam um terço da população, e a polícia israelense. Ataques mútuos entre judeus e árabes transformaram a convivência na cidade, calma há pelo menos uma década, num barril de pólvora.

Na noite de ontem, um atirador palestino alvejou com três tiros um líder da extrema-direita israelense no meio da rua, numa ação elogiada pelos grupos islâmicos, como o Hamas. Durante a madrugada, soldados israelenses mataram o atirador, aumentando o temor de novos confrontos hoje.

Na semana passada, um palestino de 21 anos matou duas pessoas, um bebê de três meses e uma jovem do Equador, num atropelamento deliberado de pessoas que haviam saído do metrô de superfície da cidade. O metrô, aliás, tem servido de alvo de ataques, apedrejamentos e pichações desde que três judeus ultranacionalistas chocaram o país ao queimarem vivo um jovem palestino, em junho, por “vingança” pelo assassinato de três adolescentes judeus na Cisjordânia.

A tensão aumentou ainda mais com o conflito de 50 dias entre Israel e o Hamas, que controla a Faixa de Gaza, em julho e agosto, e agora, esse nervosismo parece estar chegando ao auge.
 

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