Países desenvolvidos tiveram governos fortes depois de eleições apertadas

Áudio 05:14
A presidenta reeleita do Brasil, Dilma Rousseff, em foto de arquivo
A presidenta reeleita do Brasil, Dilma Rousseff, em foto de arquivo Divulgação/ Agência Brasil

Tão logo se consolidaram os resultados da eleição presidencial no Brasil, no último domingo, os sites dos principais jornais do país começaram a destacar em suas manchetes o fato de que Dilma Rousseff havia sido reeleita com uma margem muito estreita de votos. O tom geral da cobertura dava a entender que o país estava dividido e que isso seria fruto de um enorme descontentamento da população com a política petista. Era como se a vitória, por não ser uma lavada, não chancelasse a candidata vencedora.

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Além desta vitória ser "menos legítima" do que as últimas conquistas do PT, a ausência de uma votação acachapante encurtaria radicalmente a margem de manobra do próximo governo. Em outras democracias, como os Estados Unidos ou a França, disputas polarizadas são regra e não exceção. Barack Obama, por exemplo, bateu Mitt Romney em 2012 por uma diferença de menos de três pontos percentuais. Naquele mesmo ano, François Hollande abriu pouco mais de 2 pontos sobre Nicolas Sarkozy.

Anthony Pereira, diretor do Brazil Institute, no King's College de Londres, não acredita que eleições apertadas sejam necessariamente um empecilho à governabilidade. Ele lembra, por exemplo, que Margaret Thatcher foi eleita por apenas dois milhões de votos em 1979, para o mandato em que iniciou uma série de reformas estruturais de cunho liberal. "George W. Bush, em 2000, perdeu" no número de votos absolutos. Foi naquela gestão à frente da Casa Branca, que ele mudou o curso da história ao convencer metade do planeta a caçar armas de destruição em massa onde não havia.

Para o professor americano James Green, diretor da Brazil Initiative, na Brown University de Rhode Island (EUA), foi a incompetência da oposição em apresentar candidaturas fortes nas últimas eleições que fez com que os brasileiros se acostumassem às vitórias avassaladoras do PT. "O fato de o PSDB ter lançado no passado candidatos que foram muito fracos (Geraldo Alckmin e José Serra) deixaram as pessoas imaginarem que o PT ou qualquer outro partido teriam que vencer com margens de 10% a 20%".

Unidos no discurso, divididos na prática

No discurso que fez logo após a vitória, Dilma tentou apaziguar as diferenças que, evidentemente, foram catalizadas por uma campanha de rara agressividade. "Minhas primeiras palavras são, portanto, de chamamento e união. Democracia madura e união não significam necessariamente unidade de ideias nem ação monolítica conjunta, mas, em primeiro lugar, disposição para o diálogo. Esta presidente aqui está disposta ao diálogo", disse ela.

Nenhum dos dois especialistas acredita piamente nisso. Para Green, há uma polarização política e outra regional, que não serão eliminadas facilmente. Principalmente por conta do rastro de rancor deixado pelo discurso xenófobo contra os nordestinos. O preconceito divide-se entre o deliberado ("O Brasil tinha que se separar" ou "O sul e o sudeste carregam o nordeste nas costas", para ficar nos mais leves) e aquele "embutido no discurso contra o Bolsa Família. Eu fiquei muito triste com essa maneira de atacar o governo, alegando que pessoas que recebem o Bolsa Famíllia não têm capacidade de pensar seu voto porque estão recebendo ajuda do governo".

Para ele, essa polarização deve continuar e por isso o discurso da presidente não deve ser lido de maneira muito literal. "Essa coisa de insistir sobre reivindicações que a presidente 'tem que' imediatamente implementar, isso não existe em outros países. Quem ganha, ganha. Ganhou, venceu e vai implementar seu programa", afirma o professor da Brown University.

"Parece que ela está sentindo a necessidade de unir o eleitorado, falar sobre a reforma política, fazer alianças", observa Anthony Pereira. "Em termos de argumento normativo - 'ela tem que fazer isso' -, eu não concordo necessariamente. Acho que, em qualquer democracia, você tem a eleição e o vencedor tem todo o direito de governar como ele quiser". Ele pondera, no entanto, que no contexto brasileiro, ela sente que é necessário "não somente restaurar as relações com a oposição, mas internamente".

Pereira se refere ao PMDB, que impõe empecilhos ao ponto chave das promessas de Dilma para o novo mandato: a reforma política. Ela pede plebiscito, mas querem referendo os caciques da base - que são o que são porque têm a fórmula e a estrutura política para se manter no poder desde a ditadura. O referendo implica que o texto passe pelo Congresso e que sobre para a população um simples "sim" ou "não" sobre o que eles decidirem.

Democratização da mídia

Uma reforma incomoda muita gente. Duas reformas incomodam muito mais. E a segunda delas, a democratização da mídia, foi natimorta no passado, quando Lula aventou a possibilidade de um conselho social da mídia e terminou censurado por uma enxurrada de acusações de querer "censurar". Dilma prometeu naquele mesmo discurso que não será radical neste sentido, mas quer regulações econômicas e do direito de resposta.

Para os especialistas, impressionados com o deserto de regulação em que trabalham os grandes veículos brasileiros, ela deveria ir além disso: "Eu acho uma pena que ela não tenha liderado uma tentativa mais séria de propor algum tipo de regulação porque há mito que um governo propondo alguma regulação sobre como a mídia pode agir, isso implica necessariamente no fim da liberdade de imprensa", diz Anthony Pereira.

França e Grã-Bretanha têm regulação estrita

Mas, para ele, "isso não é verdade. Se você olha, por exemplo, a França ou a Grã-Bretanha, há regras importantes sobre o comportamento da mídia. Mas acho que Dilma, por causa desta postura da maioria dos atores da mídia contra o governo dela, parece que ela tem hesitação em enfrentar essa questão", observa o professor.

Green vai na mesma linha: "Eu não conheço nenhum outro país democrático em que a grande imprensa apóia um só partido político e é totalmente contra um governo. Não existe isso. Nos Estados Unidos, tem jornais liberais, jornais conservadores, a linha editorial é uma coisa, as reportagens são outra coisa. No Brasil, não é nada disso. As reportagens, as manchetes, são totalmente parciais e politizadas, explica que só existe uma versão sendo transmitidas para as classes médias que compram os jornais e para as classes populares, que assistem ao Jornal Nacional, da Rede Globo".

Curiosamente, os dois especialistas concordam em discordar da imprensa brasileira no que tange a análise dos resultados eleitorais e o prognóstico para os próximos anos de Dilma Rousseff à frente da presidência. Um deles vem da Inglaterra, que é a mãe biológica do neoliberalismo. O outro, dos Estados Unidos, pai de criação. E os dois acreditam que, enquanto a grande mídia for regulada exclusivamente pelo mercado, nossa democracia não será completa.

 

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