Linha Direta

Imigrantes europeus dão mais lucro que prejuízo para o Reino Unido

Áudio 04:21
O primeiro-ministro britânico, David Cameron, e o chefe do partido eurocético Ukip, Nigel Farage (à direita).
O primeiro-ministro britânico, David Cameron, e o chefe do partido eurocético Ukip, Nigel Farage (à direita). Fotomontagem / Wikipédia

Um estudo realizado por economistas da University College London, do Reino Unido, promete agitar o debate sobre um dos temas mais polêmicos em muitos países europeus: a imigração. A pesquisa revelou que no período entre os anos de 2000 e 2011, os imigrantes vindos dos países da União Europeia contribuíram para a arrecadação de 20 bilhões de libras para os cofres públicos do Reino Unido, o equivalente a quase 80 bilhões de reais.

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Maria Luisa Cavalcanti, correspondente da RFI em Londres

Os britânicos vêm defendendo uma modificação na lei que permite o livre trânsito de cidadãos europeus entre os países do bloco, o que tem irritado outros governos, como a Alemanha. O estudo da UCL, que é considerada a terceira melhor universidade do país e a quarta melhor do mundo, conclui que os imigrantes europeus geram mais recursos públicos para o Reino Unido do que utilizam esses recursos na forma de benefícios sociais. Ou seja, derruba um dos argumentos mais usados pelos políticos que defendem barreiras para os imigrantes: o de que o grande fluxo de imigração esgotaria o sistema de bem-estar social.

O estudo mostra que, na realidade, são os próprios britânicos que recorrem mais aos benefícios sociais. Outro ponto interessante do estudo é o fato de haver mais imigrantes qualificados e com diploma universitário no mercado de trabalho britânico do que dentro da própria força de trabalho formada pelos cidadãos do país. Os trabalhadores imigrantes também são, em média, mais jovens do que os trabalhadores britânicos.

Apesar dos dados, muitos analistas políticos reforçaram que só esse estudo não é suficiente para mudar a percepção dos britânicos em relação à questão da imigração. A opinião pública ainda é majoritariamente contra a entrada em massa de imigrantes, e uma prova disso é o crescimento do partido Ukip, de linha nacionalista. O líder do partido, Nigel Farage, disse que prefere ter um Reino Unido menos rico do que ver o país recebendo mais imigrantes.

Discurso eleitoreiro

Em maio do ano que vem, o Reino Unido vai ter eleições gerais para formar um novo governo e o tema da imigração terá um peso enorme na campanha. Em agosto, dados do governo mostraram que a imigração no Reino Unido aumentou 38% no último ano. Além do sinal dado pela ascensão de popularidade do Ukip, uma pesquisa realizada no começo deste ano pela rede pública BBC mostrou que 76% dos britânicos defendem algum tipo de restrição à imigração. Os principais partidos sabem disso e já fizeram várias declarações sobre planos de mudar as leis de imigração, inclusive o principal partido de oposição, o Trabalhista, que geralmente é mais aberto à aproximação do Reino Unido com o resto da União Europeia.

Esta semana, a chanceler alemã, Angela Merkel, teria dito que prefere ver o Reino Unido sair do bloco do que ter o país limitando as regras de livre circulação entre os cidadãos europeus. A declaração de Merkel teve repercussão em Londres. O ministro da Economia, George Osborne, respondeu dizendo que o Reino Unido vai continuar defendendo as restrições porque precisa colocar os interesses nacionais acima dos interesses da União Europeia.

A questão da imigração coloca o Reino Unido em evidência em um momento delicado para o primeiro-ministro David Cameron, que se vê cada vez mais isolado dos outros chefes de Estado europeus. Ontem, o presidente da Comissão Europeia, Jean-Claude Juncker, criticou Cameron por outro motivo, o fato de ele ter dito que o Reino Unido não quer pagar quase 2 bilhões de libras como um adicional de contribuição ao orçamento do bloco. Juncker disse que Cameron tem um problema "com os demais primeiros-ministros do bloco".

É importante lembrar que Cameron defende a realização de um referendo sobre a permanência do Reino Unido na União Europeia. Se ele for reeleito no ano que vem, o referendo deve acontecer em 2017.

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