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Grupos de extrema-direita radical se integram ao cenário político francês

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Marine Le Pen, presidente do FN, em Frejus, no dia 7 de setembro de 2014.
Marine Le Pen, presidente do FN, em Frejus, no dia 7 de setembro de 2014. REUTERS/Eric Gaillard

A extrema-direita francesa está longe de ser representada apenas pelo partido Frente Nacional, presidido por Marine Le Pen. Nos confins do país, longe do clima de diversidade da capital, a “França profunda”, como é chamado o interior pela população, abriga grupos radicais que semeam o ódio e o racismo contra imigrantes, etnias e várias religiões.

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Não se tratam de movimentos isolados que se reúnem na calada da noite, longe dos holofotes. O modus operandi é adaptado, naturalmente, à propaganda na era digital. Eles possuem sites, organizam encontros partidários e contam até mesmo com lojas on-lines onde vendem camisetas e outros objetos para apoiar a “causa.” O discurso também é trabalhado para que ele seja tolerado socialmente e legalmente, não sendo considerado anticonstitucional, evitando palavras e termos que visem diretamente uma minoria, por exemplo.

O grupo mais atuante é o Génération Identitaire, formado por jovens na sua maioria de 25 anos, de famílias modestas, que hoje conta com mais de 2 mil membros. Eles defendem que são “vítimas” da imigração porque, sendo “franceses puros”, estão se tornando minoria em seu próprio país, sofrem discriminação e rejeitam o multiculturalismo. Eles também lutam para disseminar a grotesca tese baseada na “remigração”, e a defesa do “retorno voluntário” dos imigrantes aos seus países de origem e seus descendentes nascidos na França.

Remigração

O cientista político Jean Yves Camus, um dos maiores especialistas franceses da extrema-direita, explica que a “remigração” se baseia na ideia do risco de uma “ampla substituição” dos franceses de origem por imigrantes. A tese é de autoria do escritor francês do início do século 20, Renaud Camus, que paradoxalmente era considerado de esquerda, mas chamava a atenção para o risco do modo de vida pregado pelo Islã, que desconsideraria a igualdade de gêneros, a liberdade de expressão e outros conceitos fundadores das sociedades de direito ocidentais.

Como ocorreu então a deturpação dessa teoria e a utilização pelo grupo de extrema-direta radical? “É preciso integrar a ideia que a França não é, na essência, um país de imigração. Não é como o Brasil e os Estados Unidos, que se constituíram pela chegada massiva de ondas de imigrantes, que valorizaram o país, se instalaram, e formaram uma sociedade multirracial, multiétnica e multicultural. Não é desta maneira que concebemos as coisas na França. E essa especificidade histórica francesa, muito diferente de outros países até mais próximos, como a Grã-Bretanha, nos leva a ter a impressão de que um certo número de eleitores se sente, como vemos com frequência nas pesquisas de opinião, como se não estivesse 'mais em casa'.”

“Il est temps de partir”

O slogan usado pelo grupo, em francês, é “Il est temps de partir” (é hora de ir embora em tradução livre). Em uma de suas “reportagens” publicadas em sites de extrema-direita, Damien Rieu, porta-voz do Génération Identitaire, chegou ao ponto de entrevistar imigrantes clandestinos malinenses que chegaram de barco à Sicília, para saber quais eram seus projetos no continente europeu.

O especialista francês também lembra que os grupos radicais sempre existiram no país, mesmo logo depois da Segunda Guerra Mundial e o trauma do Holocausto. “Poucos anos depois da Liberação, diversos grupos de extrema-direita reapareceram. Eles nunca tiveram uma importância real no cenário eleitoral, até a Frente Nacional se tornar um partido político, nos anos 80. E há dez anos observamos um movimento habitual em todas as democracias parlamentares: quando um partido de extrema-direita se consolida na cena política e obtém um grande número de votos, ele é obrigado, de maneira inevitável, a moderar suas mensagens e suas posições, e a maneira de fazer política”, diz.

Segundo ele, esse contexto é favorável à liberação de um pequeno espaço político para formações radicais, com pouca representatividade. Ou, como no caso da Génération Identitaire, atuar “no campo das ideias.” A tática, explica o especialista, “é formar militantes que em seguida farão ‘carreira’ na Frente Nacional, e utilizando as novas mídias, Internet e redes sociais, disseminam suas mensagens principalmente para meninas e meninos, menos receptivos que a geração anterior ao modo de comunicação política tradicional.”

Frente Nacional tenta se desvencilhar da imagem dos grupos radicais

A influência cada vez maior da Frente Nacional na política francesa levou o partido a se afastar dos grupos radicais –mesmo que alguns de seus membros integrem o quadro de funcionários de prefeituras francesas administradas pela extrema-direita francesa, como é o caso da cidade de Beaucaire, na Provença. “Desde que Marine Le Pen é presidente da Frente Nacional, em janeiro de 2011, esses grupos são vistos com desconfiança. Isso porque o partido da gestão Le Pen segue uma ótica de “desdiabolização”", explica o especialista.

"O que isso significa? Que ela tenta, aos olhos dos franceses, dos eleitores, que o FN aja como um partido político normal, com posições mais radicais sobre a identidade, a imigração e a segurança, mas como um partido político que não seja mais excluído pelos eleitores e a outras formações. Para isso, é preciso eliminar toda a agressividade do linguajar e Marine Le Pen é especialista nisso. Eliminar qualquer referência ao Holocausto, à Segunda Guerra Mundial e evitar que a ação política descambe para a violência verbal e física”, analisa.

De acordo com ele, até 2011 havia membros da Frente Nacional oriundos de grupos ainda mais radicais. Todos foram expulsos. A exceção fica por conta da Génération Identitaire e alguns de seus membros, que trabalham para vários integrantes da Frente Nacional. Mesmo que a ordem dentro do partido seja para que não seja feita nenhum tipo de aliança.

Uma das diferenças fundamentais entre o partido de Marine Le Pen e a Génération Identitaire é a identidade. “Para os militantes desse grupo, somos franceses, mas antes de mais nada temos uma identidade em uma região. Talvez seja algo dificilmente compreensível em países mais jovens, mas a França é um velho país, constituído pelo agrupamento sucessivo de regiões que nem sempre foram francesas”, diz. “Cada uma tem sua própria identidade e língua, como a Bretanha, a Alsácia, a Córsega. Para esses grupos radicais, somos antes de mais nada uma região, em seguida franceses e depois europeus. Europeus porque pertencemos a uma civilização comum, que é o fruto da História e de uma identidade étnica”, explica.

De acordo com ele, a mensagem que fica da emergência desses movimentos é a seguinte: “Hoje, na Europa, principalmente na França, há uma geração que rejeitou o termo multiculturalismo.”
 

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