“Solução contra o extremismo está na educação e não no aumento da segurança”, diz militante associativo francês

Áudio 08:46
O premiê Manuel Valls exibe seu exemplar do jornal Charlie Hebdo
O premiê Manuel Valls exibe seu exemplar do jornal Charlie Hebdo AFP PHOTO PATRICK KOVARIK

Militante associativo e morador de Saint Denis, um dos bairros mais violentos da região parisiense, o fisioterapeuta francês Emmanuel Dessendier, leitor há 20 anos do jornal Charlie Hebdo, defende que a educação é a melhor solução contra o terrorismo. “Aumentar a segurança não é a resposta mais adequada contra o jihadismo”, diz.

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O fisioterapeuta Emmanuel Dessendier realiza um trabalho social voluntário em escolas infantis na periferia de Paris. Diferentemente dos novos leitores do Charlie Hebdo, que abriram o jornal pela primeira vez depois do atentado que matou 8 membros da redação, no dia 7 de janeiro, ele é leitor assíduo da publicação há quase 20 anos. "Não concordava sempre com o ponto de vista do jornal, mas entendia qual era sua linha e a respeitava". Segundo ele, transformar Charlie em um “símbolo da liberdade de expressão” é perigoso. Leia a entrevista:

RFI – O que te incomoda nas manifestações que sucederam ao atentado?

ED – De repente, é como se toda a França lesse o jornal. E Charlie Hebdo, estou certo, não faz seu trabalho para isso. Não é para que o país inteiro leia. Conquistar a França não é um objetivo. Eles existem dentro de uma pluralidade de pontos de vista. É uma opção ler ou não. É isso que me entristece hoje em dia. Gente que nunca leu Charlie, que não liga, de repente se transforma em um defensor de Charlie. Isso me incomoda. De repente temos a impressão de uma unidade de discurso, mas que esconde posições bem diferentes. E essa “pseudounidade” é assustadora. Existem consequências: em nome dessa “liberdade de expressão” vamos limitar a liberdade de trocas na internet, por exemplo, para prevenir o terrorismo. Isso é estranho. Em nome da defesa da liberdade de expressão na sociedade, vamos limitá-la.

RFI – Depois do ataque, você acredita que os muçulmanos serão ainda mais estigmatizados na França?

ED – Não acho que vá aumentar a estimagtização, mas, em nome da “liberdade de expressão”, haverá menos freios nos ataques contra os muçulmanos. Mesmo antes dos atentados, já havia uma tensão. Talvez tudo isso se acelere e acabe demostrando também a necessidade de uma reflexão coletiva: a construção de uma sociedade que integre todo mundo. Não posso resumir esse ataque dizendo apenas: “são extremistas muçulmanos.” É muito complexo definir quem são essas pessoas. Isso talvez faça parte da minha profissão, mas seria importante saber qual é a situação psicossocial desses indivíduos desde a infância. Tem também toda a questão cultural, em um sistema mundializado e pós-colonialista. Há diferentes fatores em jogo.

RFI – Em sua opinião, como explicar o radicalismo extremista que levou a esse ataque?

ED – Penso que é a expressão de uma situação política e mundial complexa. Os franceses, de repente, se viram diante dessa situação. Isso dói muito. E o perigo é querer ‘liberar’ essa dor em torno de uma onda coletiva pela defesa da liberdade, e não sei o que mais. A complexidade da questão acaba se dissipando no meio de um “blá blá blá” ideológico e emocional. Isso é perigoso.

RFI – Qual a solução para evitar a radicalização desses jovens?

ED – Não vejo outra solução além de ampliar o foco da discussão e evitar as teorias securitárias e ideológicas em torno dos chamados valores da liberdade. O que está acontecendo envolve a educação, a formação, o mundo do trabalho e as perspectivas que as pessoas têm, ou as perspectivas que elas não têm. O problema é político, não de segurança.

RFI – Como atacar a base do problema?

ED – Eu milito em uma associação no bairro, dedicada a crianças de 0 a 6 anos, e acreditamos no multiculturalismo. Quanto mais espaços de diversidade cultural forem criados, mais meios teremos para resolver esse tipo de problema. Veja o atentado contra Charlie Hebdo: se você prestar atenção na origem dos autores do ataque e olhar com atenção as problemáticas às quais eles foram confrontados durante a vida, não tem como não questionar nosso sistema educacional na França. Hoje as crianças desde muito cedo entram em competição, e algumas intuitivamente já sabem que não vão seguir por esse caminho, que não têm chance de darem certo. Desde cedo sabem que são perdedores. Isso é uma monstruosidade.
 

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