Linha Direta

Morte de promotor Nisman na Argentina vira "folhetim policial"

Áudio 05:25
A presidente argentina Cristina Kirchner durante discurso em rede nacional sobre o caso Nisman, em 26 de janeiro de 2015.
A presidente argentina Cristina Kirchner durante discurso em rede nacional sobre o caso Nisman, em 26 de janeiro de 2015. Reuters

A morte do promotor Alberto Nisman, que denunciou a presidente Cristina Kirchner por encobrir criminosamente a participação do Irã num atentado terrorista em Buenos Aires, tornou-se um verdadeiro roteiro de Hollywood, mas na vida real. O caso Nisman tem revelado aos argentinos destalhes do submundo da espionagem e da contra-espionagem. E quem mais divulga teorias conspiratórias com agentes encobertos é justamente a presidente Kirchner, que no meio dessa "Guerra de espiões", acaba de dissolver a Secretaria de Inteligência.  

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Márcio Resende, correspondente da RFI Brasil em Buenos Aires

A presidente Cristina Kirchner, principal acusada da denúncia do promotor Alberto Nisman, aparece como uma detetive que tenta adivinhar a trama na qual ela se coloca como vítima de uma conspiração entre espiões, opositores e meios-de-comunicação.

Para entender a teoria da presidente é preciso dividir os espiões entre agentes bons e maus; entre a favor e contra o governo.

Cristina Kirchner acusa implicitamente o espião Antonio Stiusso principal espião da Secretaria de Inteligência e a principal fonte de informação do promotor morto. Por ter sido removido do cargo em dezembro passado, Antonio Stiusso teria usado a denúncia do promotor para se vingar de Cristina Kirchner. Depois de usar o promotor como instrumento de vingança, era necessária a sua morte.

O autor material do crime, segundo a teoria de Cristina Kirchner, seria Diego Lagomarsino. Esse colaborador do promotor Nisman foi quem lhe emprestou a pistola posteriormente usada no crime.Como o irmão de Lagomarsino é sócio de um escritório de advocacia que trabalha com o grupo Clarín, pronto! Para Cristina, uma conspiração para desestabilizar o governo.

A presidente está sendo chamada aqui de "Agatha Cris". Mas Cris de Cristina e não o Christie da escritora britânica.

Intenções de Cristina Kirchner

Além de se colocar como vítima, a presidente quer promover uma limpeza na Secretaria de Inteligência para separar espiões favoráveis ao governo dos que agem contra o governo.

Na segunda-feira (26), Cristina Kirchner apareceu pela primeira vez em rede nacional de rádio e TV. Mostrou-se vulnerável numa cena construída para comover. Ela sempre aparece atrás de uma mesa de trabalho, mas desta vez apareceu em cadeira de rodas e com uma bota ortopédica para uma fratura no tornozelo que já não lhe impede de caminhar. Ela também estava vestida de branco com transparências para se mostrar em contraste com o mundo obscuro da espionagem.

Cristina anunciou que vai dissolver a atual Secretaria de Inteligência e que vai criar uma Agência Federal para a área. A reforma que ela propõe implica mais controle do Executivo sobre os agentes e sobre as escutas.

Se algum espião tiver contato com algum membro do Executivo ou do Legislativo, poder receber penas entre 3 e 10 anos de prisão. O objetivo dessa medida é que informações não vazem à imprensa.

O sistema judicial de escutas sai da órbita da Secretaria de Inteligência e passa a ser controlado pelo Ministério Público cuja procuradora geral é uma militante da causa kirchnerista. Ou seja: o governo vai ter o controle indireto sobre as escutas.

O diretor da Associação de Juízes, Ricardo Recondo, foi ilustrativo: "É como pedir ao lobo que cuide das ovelhas". A reforma anunciada por Cristina Kirchner é uma maquiagem destinada a impedir que as escutas virem denúncias contra o governo.

Guerra de espiões e investigações

O jornalista Damián Pachter foi o primeiro avisar sobre a morte do promotor Nisman.Por isso, começou a ser perseguido e a receber ameaças. Precisou fugir do país, despistando o governo e agentes secretos. Como no roteiro de um filme, acaba de se refugiar em Israel numa fuga que passou pelo Uruguai e pela Espanha.

O jornalista acha que, como revelou a morte antes que as autoridades soubessem, evitou que a cena do crime fosse armada. Antes de ele fugir do país, o governo já tinha divulgado, através da agência oficial de notícias, os dados pessoais e confidenciais de voo.

Duas deputadas da oposição que estiveram com o promotor revelaram que ele tinha descoberto ter sido traído por um agente secreto da Secretaria de Inteligência. Esse espião argentino teria passado informações pessoais do promotor e da sua família a um dos acusados iranianos do atentado em Buenos Aires. Ou seja: o espião argentino é, na verdade, um duplo espião. Segundo as deputadas, Nisman contou que estava sob ameaça, mas não chegou a contar o nome do agente. Contaria quando fosse ao Congresso, mas morreu antes.

Aliás, somente amanhã, 11 dias depois da sua morte, o corpo do promotor Alberto Nisman será enterrado.

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