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Para estimular cidadania, França quer impor serviço cívico a todos os jovens

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Cerca de 35 mil jovens participam atualmente das missões propostas pelo serviço cívico na França.
Cerca de 35 mil jovens participam atualmente das missões propostas pelo serviço cívico na França. Divulgação

Um projeto de lei pode tornar obrigatório que todos os jovens franceses de 16 a 25 anos participem de missões solidárias e cidadãs na França. A atividade, conhecida como "serviço cívico", já existe no país desde 2010 e tem como objetivo estimular os valores republicanos.

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Atualmente, o serviço cívico é uma espécie de trabalho voluntário remunerado € 574 euros por mês, com a duração de 6 meses a um ano, e que conta com a participação de cerca de 35 mil pessoas. Impondo a obrigatoriedade, cerca de 800 mil jovens seriam integrados ao sistema anualmente - o que também custaria caro aos cofres do Estado.

Mas, depois dos atentados de janeiro em Paris, o governo francês se apressa em colocar em prática medidas para evitar que novos incidentes aconteçam. Os principais alvos das preocupações são os jovens e a educação nacional, que foi especialmente responsabilizada pela falta de integração, engajamento e cidadania entre os estudantes franceses.

80% dos franceses apoiam serviço cívico

Uma pesquisa recente aponta que 80% dos franceses é favorável à imposição do serviço cívico na França, país onde o alistamento militar obrigatório foi abolido em 1995. Já os jovens e as associações onde as missões são realizadas estão relutantes.

Nadia Bellaoui, presidente do Movimento Associativo, organização que coordena todas as missões do serviço cívico nas associações francesas, critica a urgência em colocar o dispositivo rapidamente em prática a todos os jovens do país.

"Somos favoráveis à extensão progressiva desta experiência cidadã à todos os jovens. Mas também pensamos que é necessário mais tempo para mobilizar as associações para que elas possam propor missões úteis aos jovens, e que essas organizações continuem a desenvolver a cultura do voluntariado na sociedade francesa", diz Nádia.

Falsa expectativa

A professora de sociologia da universidade de Cergy-Pontoise, Valérie Becquet, realizou uma pesquisa durante quatro anos com jovens voluntários na associação francesa Unis-Cité. Para ela, há uma responsabilização excessiva das organizações e uma falsa expectativa em relação ao serviço cívico.

"É errado considerar que o serviço cívico vai resolver todos os problemas dos jovens. É como se o governo colocasse 'panos quentes' sobre as verdadeiros falhas na educação. As associações francesas não podem ser encarregadas de resolvê-las", avalia a professora.

Obrigatoriedade revolta os jovens

O estudante de História da Universidade de Saint-Denis Paris 8, Jules Rondeau, é integrante do Movimento Jovens Comunistas da França (MJCF) e da União dos Estudantes Comunistas (UEC), com quem trabalha no engajamento político de alunos de escolas da cidade de Saint-Denis, na periferia de Paris. Se o projeto da obrigatoriedade do serviço cívico for aprovado, o próprio Jules pode ser submetido à imposição do dispositivo, que ele denuncia como uma forma do governo de dissimular o desemprego na França.

"Frequentemente quem se engaja no serviço cívico é porque não encontrou um trabalho, já que hoje está difícil de achar um emprego. O serviço cívico paga pouco mais de € 500 por mês porque o governo não o considera como um trabalho formal. Essa não é uma remuneração decente; todo trabalho tem que ser pago corretamente. Além disso, o serviço cívico obrigatório também pode ser uma forma de tentar esconder o desemprego entre os jovens", ressalta.

As escolas da região de Seine Saint-Denis, onde Jules estuda, viraram alvo da mídia e do governo ao registrar casos de estudantes que se recusaram a fazer um minuto de silêncio pelas vítimas do atentado contra o jornal Charlie Hebdo. São principalmente esses jovens que o governo pretende integrar ao serviço cívico, na esperança de inspirá-los a serem mais cidadãos. Mas, para Jules, impor esse dispositivo aos jovens pode revoltá-los ainda mais.

"A coesão republicana, a cidadania e a solidariedade não serão geradas por esse processo artificial que é o serviço cívico obrigatório. Ele não resolve os nossos verdadeiros problemas. Hoje, por exemplo, as escolas não têm condições de dar uma educação digna aos estudantes. Então, como eles querem impor aos jovens a se engajar no serviço cívico, se nem mesmo o próprio Estado cumpre suas obrigações?", questiona.

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