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Número de meninas-soldado no mundo aumentou em 40%, diz ONG francesa

Áudio 04:37

Diversas associações humanitárias francesas promovem nesta semana atividades para conscientizar a população do sofrimento das crianças-soldado, envolvidas à força em conflitos armados em várias regiões do planeta. Segundo a ONG Visões do Mundo, cerca de 250 mil crianças estão nesta situação, que tende a piorar com a tomada de territórios na Síria e no Iraque pelo grupo Estado Islâmico.

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O Dia Mundial contra o uso de crianças-soldado é celebrado no dia 12 de fevereiro. Para marcar a data, a associação francesa Visões do Mundo promoverá palestras para levar ao conhecimento do grande público o sofrimento vivido por esses menores na África, América e no Oriente Médio.

Na semana passada, um relatório da ONU mostrou que crianças estão sendo usadas como escudos humanos, kamikazes, sendo torturadas e vendidas como escravas, principalmente nas regiões iraquianas controladas pelo grupo Estado Islâmico. O documento mostra que as comunidades yazidi e cristã são as mais afetadas e também são alvo de execuções em massa, decapitações e crucificações. Alguns menores são até mesmo enterrados vivos.

O número de meninas utilizadas em conflitos pelo mundo, usadas como empregadas domésticas ou escravas sexuais, também tem aumentado. Hoje, elas representam cerca de 40% dos menores de 18 anos engajados em guerras pelo mundo, explica Camille Romain, representante da associação Visões de Mundo.

“Meninos e meninas são empregados para preparar missões de espionagem, de detecção de explosivos. As meninas, além disso, ajudam nas tarefas da casa, e se tornam escravas domésticas e sexuais. Nesses grupos armados existem poucas mulheres e os homens querem satisfazer suas vontades. As jovens mulheres então acabam se tornando um alvo fácil.”

Além disso, muitas são estupradas e engravidam, se tornando mães adolescentes. “Também temos um trabalho para acompanhar essas jovens mães. Nós as ajudamos a aceitar seus bebês, a amá-los, e as incentivamos a ficar com eles, para que eles cresçam em boas condições.”

Centros ajudam a dar um futuro para crianças

Para evitar que essas crianças se tornem presas fáceis, a associação francesa realiza um trabalho de prevenção junto às famílias mais pobres. O objetivo é convencer os menores de que aceitar propostas aparentemente tentadoras dos grupos armados pode ser um grande erro.

Os representantes da associação também tentam “salvar” crianças que já foram “contratadas” por esses grupos. Quando a experiência é bem-sucedida, elas são enviadas a centros de recuperação, onde têm a possibilidade de voltarem para a escola ou aprenderem uma profissão.

“Neste centro, recebemos meninas e meninas. Temos três grandes atividades: a primeira, um grande trabalho psicológico, para ajudar as crianças a superarem esses traumatismos. A segunda, criar um acompanhamento escolar e na formação profissional. A terceira é um trabalho de reconstrução na relação com a família e a comunidade.” A dificuldade, explica, é inserir novamente essas crianças no contexto familiar, sendo que muitas vezes elas foram obrigadas a cometer atos bárbaros contra sua própria comunidade.

Profissionais especializados se encarregam de ajudar as crianças a recuperarem sua auto-estima e a confiança no outro. Na maioria das vezes, diz a representante da associação, “elas chegam amedrontadas com as imagens das experiências vividas ao lado dos combatentes, de tudo o que aconteceu, e isso as impede de dormir, de falar”, diz Camille. Segundo ela, aos poucos, os psicológos utilizam desenhos e diferentes formas de expressão e aos poucos a confiança se restabelece.

Ela cita o exemplo de um menino de 13 anos que foi soldado em Uganda, conseguiu fugir e passou vários meses em um dos centros. No local, ele fez um curso de mecânico e se recuperou totalmente, “retomando o gosto pela vida”.

Os centros da Associação Visões do Mundo, instalados em países como a Uganda e República do Congo, são financiados pelas doações e o apoio de estruturas governamentais locais, além das Nações Unidas. No total, mais de 17 mil crianças já se beneficiaram de um acompanhamento.
 

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