O Mundo Agora

Quem são, concretamente, os terroristas islâmicos?

Áudio 05:15

O inimigo não tem rosto. O primeiro-ministro fala de “islamofascismo”. Obama acha que são só “extremistas violentos”, enquanto a chefe do governo dinamarquês denuncia uma “ideologia sinistra”. Em termos gerais, essa terminologia pode até funcionar. Só que é muito difícil enfrentar generalidades. Hitler ou Mussolini eram inimigos em carne e osso. Mas quem são, concretamente, os terroristas islâmicos?

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A Segunda Guerra Mundial não foi uma guerra contra um ente abstrato – o “terror” –, mas contra regimes políticos e aparelhos de estado bem identificados, com nome e endereço. Os últimos atentados na Europa foram feitos por indivíduos, jovens cidadãos locais, nem sempre apoiados por uma organização qualquer. Aliás organização, quando existe, parece mais com um pequeno grupo criminoso sem pé nem cabeça.

O dito “pensamento” dessa nebulosa islamista não vai além de uma espécie de bricolagem de pedaços mal digeridos do Alcorão, experiências de pequena criminalidade, traços de revoltas ocidentais, anti-semitismo de botequim e uma cultura violenta de vídeo-game. Não faz muito sentido, mas funciona.

Essa mistura sem nexo não tem nada a ver com as ideologias estruturadas do século 20 nem mesmo com as práticas religiosas tradicionais. Mas ela está atraindo milhares de jovens desgarrados que tentam inventar um sentido para as próprias vidas. E não há dúvida que essa brutalidade niilista é perigosíssima, já que ela pode aparecer em qualquer lugar e a qualquer momento, sem possibilidade de se prever as agressões.

O problema central, tanto no Ocidente quanto no mundo árabe e muçulmano, é a fragmentação social generalizada. Passar metade do dia nas redes sociais, remoendo frustrações e consumindo sem nenhum filtro uma enxurrada de informações e opiniões as mais malucas ou ignóbeis – sem falar nos seriados e jogos cada vez mais violentos e sanguinários – acaba com qualquer base de referência. As próprias famílias confessam que perderam qualquer possibilidade de diálogo com os filhos. A desagregação social exacerbada pela exclusão e a total falta de perspectivas transformam os mais vulneráveis, ou os mais violentos, em sanguinários e frios assassinos.

No Oriente Médio, as sociedades implodiram depois de anos de ditaduras ferozes, guerras externas e civis e revoluções abortadas. As instituições e líderes religiosos tradicionais perderam qualquer autoridade. Os grupos tribais se deslocaram, tanto quanto as estruturas familiares. Para a juventude muçulmana, não existem mais referências, nem políticas, nem comunitárias, nem religiosas. Até estados nacionais estão desaparecendo.

A Líbia praticamente deixou de existir. Já é certo que o Iraque e a Síria não têm mais nenhuma chance de se reconstituir. O governo de Damasco é hoje uma milícia como qualquer outra das que estão destruindo o país. As autoridades de Bagdá estão presidindo a divisão de seu território em três partes: xiita, curda e sunita. O Iêmen também implodiu. Enquanto a Turquia, o Egito, o Irã e as monarquias do Golfo, impotentes e por vezes cúmplices, também não servem mais de bússola para ninguém.

Isso abriu uma avenida para os bárbaros do dito “Estado Islâmico”. Com sua violência sem limites, uma ideologia simplória e radical, e uma propaganda utilizando todos os requintes mais cruéis do imaginário vídeo-game, o ISIS está conseguindo atrair milhares de candidatos para o jihad, muçulmanos ou convertidos. A grande novidade é que o ISIS ocupa e controla um território real, concreto. Coisa que nenhum de seus concorrentes, como o Al Qaeda, havia conseguido.

Frente à fragmentação geral da região, política, social e até familiar, esse delirante projeto de Califado selvagem tornou-se o único ponto de referência da região. É o único que diz o que vai fazer e faz o que diz. Não será possível combater essa barbárie e sua crueldade sem remorsos, se não for destruída a sua base territorial. Mas até isso não basta. Novas autoridades e instituições de referência, profundamente diferentes das ditaduras do passado, terão que ser construídas. E os muçulmanos que têm a coragem de lutar contra os jihadistas propondo uma visão moderna e tolerante do Islã deverão ser claramente apoiados. Hoje, trata-se das tarefas mais urgentes para o conjunto da comunidade internacional. Chega de enterrar a cabeça na areia.

* Alfredo Valladão, do Instituto de Estudos Políticos de Paris, escreve às terças-feiras para a RFI.
 

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