O Mundo Agora

Regime bolivariano da Venezuela está à beira do caos

Áudio 05:17
A Venezuela sofre com uma inflação galopante, a maior da América Latina.
A Venezuela sofre com uma inflação galopante, a maior da América Latina. REUTERS/Jorge Silva

A prisão do prefeito de Caracas, Antonio Ledezma, é só mais um passo a beira do abismo onde está caindo o regime bolivariano da Venezuela. O país simplesmente não tem mais onde se agarrar. A inflação está na Lua, a escassez de alimentos e produtos de consumo de base nas gôndolas tornou-se um inferno cotidiano para a população, com mais de quatro taxas de câmbio ficou impossível administrar o comércio e o dólar no “black” vale quase trinta vezes mais que o oficial.

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A única riqueza que sobrou no país depois desses anos de desmandos bolivarianos é o petróleo. Só que o preço do mesmo despencou e a empresa estatal PDVSA foi desmantelada e saqueada pelos oligarcas do regime – a dita “boli-burguesia”. A ponto que a produção hoje é quase a metade do que era quando Hugo Chávez tomou o poder.

A taxa de violência urbana é uma das mais altas do mundo. Não é de se espantar que a popularidade do presidente Nicolas Maduro está no rés-do-chão e que mais de 70% da população, exasperada, quer outro governo. Enquanto isso, o presidente só sabe acusar a oposição de “golpista” e sai em frente prendendo seus líderes, inclusive os que foram eleitos da maneira mais legítima.

Não há dúvida de que a Venezuela está à beira do caos. Não só porque o governo não sabe mais como resolver a avalanche de problemas que ele próprio criou, mas também porque a oposição está dividida, não tem nenhum programa crível e não propõem nenhuma solução factível.

Radicais x moderados

Os mais radicais apostam nas manifestações de rua para obrigar Maduro a pedir demissão, os moderados querem esperar as eleições legislativas no segundo semestre deste ano, convencidos de que vão finalmente ter a maioria no parlamento. Uma esperança bastante aleatória, já que o chavismo – e agora o “madurismo” – sempre que se sentem ameaçados, mudam as regras do jogo eleitoral para impedir a vitória dos opositores.

E nessa confusão inextricável a briga interna entre bolivarianos está cada vez pior, sem falar nos grunhidos – ainda muito abafados – de oficiais do exército preocupados com a proliferação de milícias armadas bolivarianas, mais ou menos controladas pelo grupinho no poder e seus aliados cubanos onipresentes nos serviços de inteligência.

Impotência sul-americana

Diante da possibilidade de caos generalizado, uma pequena pergunta: o que estão dizendo e o que vão fazer os vizinhos sul-americanos? O silêncio dos próprios é ensurdecedor. A UNASUR foi criada justamente para tentar resolver os problemas regionais sem ter que apelar para o “Big Brother” do norte. Só que a única coisa que a UNASUR conseguiu fazer até agora, foi uma reunião “mixuruca”, com apenas quatro chanceleres, para pedir ao seu secretário-geral, Ernesto Samper, tentar por “panos quentes” entre Caracas e Washington.

O problema é que Samper, acusado de ter sido financiado por traficantes de drogas, é persona non grata nos Estados Unidos (nem direito a visto ele tem), e que não dá para entender o que o Tio Sam pode fazer para resolver os problemas internos venezuelanos criados pelo próprio Maduro e seu regime. Se é que Washington tenha interesse nisso.

A verdade é que o silêncio e a impotência dos sul-americanos está se tornando patética. Sobretudo diante do perigo, para todos, de uma implosão da Venezuela.

É claro que vai ser necessário encontrar uma transição política negociada. Nada pior do que uma guerra civil interna ou um regime militar bolivariano reprimindo a torto e a direito.

Pós-bolivarianismo

O mínimo que a América do Sul pode fazer é pressionar Maduro para que o governo aceite não só o diálogo com a oposição, mas também a possibilidade de perder eleições livres e sem truques. Também é necessário incentivar a maior unidade possível da oposição, apoiando abertamente os que são favoráveis a uma transição pacífica, dentro da legalidade constitucional (mesmo mambembe).

O grande problema da América do Sul hoje é preparar coletivamente o pós-bolivarianismo. Se não for capaz ou, se por motivos de afinidade ideológica, continuar achando que o governo bolivariano naufragado tem que permanecer no poder, outros virão para resolver a questão. E esses “outros” serão provavelmente Cuba e os Estados Unidos. Difícil pensar que a Venezuela já não faz parte do grande “toma lá dá cá” da reconciliação histórica entre Washington e Havana.

* Alfredo Valladão, do Instituto de Estudos Políticos de Paris, escreve às terças-feiras para a RFI.
 

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