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Venezuela pode estragar acordo na Cúpula das Américas

Áudio 04:56
A 7ª Cúpula das Américas acontece nos dias 10 (sexta-feira) e 11 de abril (sábado) no Panamá.
A 7ª Cúpula das Américas acontece nos dias 10 (sexta-feira) e 11 de abril (sábado) no Panamá. REUTERS/Carlos Jasso

Na Cúpula das Américas no Panamá, Cuba vai finalmente sentar à mesa de negociações, depois de ter sido suspensa da Organização dos Estados Americanos em 1962. E melhor ainda, Havana e Washington estão negociando seriamente uma reconciliação histórica, acabando com a Guerra Fria no continente. Só que a Venezuela e os “bolivarianos” estão dispostos a estragar a festa.

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O governo de Caracas, afundado numa crise econômica e política sem saída, não pode se sustentar sem botar a boca no trombone “anti-imperialista”. Acusar os Estados Unidos de todos os males internos e externos do país é o que sobrou para tentar mobilizar uma suposta solidariedade dos outros países latino-americanos e esconder debaixo do tapete o desrespeito evidente à democracia e aos direitos humanos na Venezuela. As sanções decretadas por Obama contra meia dúzia de figurões do regime foram um ótimo pretexto para denunciar uma pretensa invasão militar americana do país.

Claro que ninguém acredita nessa baboseira, mas os bolivarianos podem paralisar a Cúpula e impedir, mais uma vez, a assinatura de um acordo final. Sem falar nos diversos temas de cooperação prática, negociados nos últimos meses, e que ficarão só no papel. A ironia desse show de retórica bolivariana é que ele divide o resto da América Latina, complica a ação diplomática dos outros e só faz fortalecer a posição dos Estados Unidos.

Subcontinente enfraquecido

Na verdade, Barack Obama vai encontrar um subcontinente fragmentado e enfraquecido. Uma região que precisa muito mais dos norte-americanos do que o contrário. A crise venezuelana é tão profunda que Caracas decidiu interromper o fornecimento de petróleo a preço de banana para seus aliados caribenhos, e centro-americanos. Só que esses presentes petrolíferos eram a única coisa que segurava essa aliança. Sem eles, os países dessa região não têm alternativa senão recompor uma relação econômica forte com o vizinho do norte.

Não é por nada que até Cuba decidiu aceitar a abertura feita por Obama. A economia da América Central e das pequenas ilhas caribenhas não tem futuro sem uma integração cada vez maior na dinâmica norte-americana. Uma integração que o México já escolheu desde os anos 1990 assinando o Tratado de Livre Comércio da América do Norte. Diga-se de passagem: os Estados Unidos também são o principal mercado de exportação da própria Venezuela.

Na América do Sul, os países da orla do Pacífico (salvo o Equador) também já caíram na real. Todos têm acordos de livre-comércio com os Estados Unidos, com a Europa e vários países asiáticos. E agora participam na grande negociação da Parceria Trans-Pacífico (TPP) organizada em volta da potência norte-americana. O próprio Equador, apesar de bolivariano, não rasga dinheiro: o governo de Rafael Correa manteve o dólar norte-americano como moeda nacional, entregando de fato a política monetária do país ao Federal Reserve em Washington.

Brasília virou pedinte

Nessa corrida para os braços do Tio Sam, sobram os membros do Mercosul. Mas até eles já estão divididos. O Uruguai e o Paraguai nunca esconderam que querem acordos com a América do Norte e o Pacífico. O Brasil, afundado numa crise econômica e política séria, está tentando remendar as relações com a Casa Branca e preparando finalmente a viagem da presidente Dilma a Washington. Só que hoje, Brasília está mais na condição de pedinte enfraquecido do que na de potência “ativa e altiva” do sonho desfeito da diplomacia lulista. Enquanto isso, a Argentina kirschnerista não tem mais a mínima credibilidade na cena internacional.

Obama tem a faca e o queijo na mão

Obama vai chegar no Panamá com faca e o queijo na mão. A América Latina vai ter que escolher. Ou bem se ancorar na dinâmica econômica e nas democracias do Atlântico norte – Estados Unidos e Europa. Ou bem tentar competir com a produção de massa chinesa e asiática – tarefa quase impossível – e continuar se virando, mal, vendendo comidinha e minério, como na época das colônias.

A Cúpula de Panamá com Cuba já é um símbolo da volta do hemisfério para um pan-americanismo renovado. Mas 25 anos depois do fim da Guerra Fria, o diferencial de poder entre o norte e o sul do continente aumentou barbaramente em favor do norte.

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