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França

Igualdade entre sexos está longe de ser alcançada na França

Áudio 06:01
As mulheres têm, em média, formação superior ao dos homens, mas ocupam menos cargos de alta responsabilidade.
As mulheres têm, em média, formação superior ao dos homens, mas ocupam menos cargos de alta responsabilidade. Pixabay/Creative Commons
Por: Daniella Franco

O baixo número de mulheres na presidência dos conselhos departamentais trouxe novamente à tona o debate sobre as desigualdades entre sexos na França. A paridade entre homens e mulheres está longe de ser alcançada na maioria dos setores da sociedade francesa, especialmente no que diz respeito a cargos de alta responsabilidade, onde "a tradição" de representantes masculinos sempre fala mais alto.

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Apesar da tentativa de equilibrar a quantidade de representantes femininas aos masculinos, com a imposição de binômios formados obrigatoriamente por um homem e uma mulher nas últimas eleições departamentais, as francesas chegaram à presidência de apenas 8 de um total de 98 departamentos. Essas instâncias administrativas são responsáveis pela construção e manutenção dos colégios, obras viárias e por aplicar recursos públicos nas áreas de habitação, transportes e cultura.

A pesquisadora Réjane Senac, do Centro francês de Pesquisa Científica e Centro de Pesquisas Políticas da Sciences Po de Paris (CNRS-Cevipof), é presidente da comissão de Paridade no Alto Conselho de Igualdade entre Mulheres e Homens. Para ela, há um bloqueio histórico às mulheres na política francesa. "Esse é o resultado de um sistema que excluiu as mulheres durante séculos e que as inclui gradativamente, mas de maneira ainda insuficiente", analisa.

A vereadora franco-brasileira da cidade de Saint-Denis, Silvia Capanema, foi escolhida como vice-presidente do departamento de Seine Saint-Denis, responsável pela pasta de juventude e luta contra as discriminações. Ela observa frequentemente desigualdades nas presidências e vice-presidências dos conselhos departamentais, nas prefeituras, entre outros. "Os postos mais altos ou as pastas mais importantes, que têm orçamentos maiores, acabam ficando nas mãos dos homens", relata.

Mercado de trabalho

Réjane Senac é autora do livro "A igualdade sob condições: gênero, paridade, diversidade", que será publicado em maio pela editora Presses Sciences Po. Ela ressalta que não é possível separar a exclusão das mulheres na política sem considerar as desigualdades na sociedade francesa. "Está claro que as mulheres francesas são educadas para ter menos ambição e se projetar menos para se tornarem líderes. Somos o país dos direitos humanos, onde foi fundado o princípio de igualdade, mas onde ainda há muitas contradições sobre essa questão", observa.

Segundo dados do Observatório das Desigualdades, qualquer que seja o nível de estudos, são as mulheres que mais têm empregos em tempo parcial: 30% contra 17% dos homens. Em relação aos homens, são elas que têm o nível mais alto de graduação e representam 60% dos estudantes em universidades francesas. No entanto, ocupam 1 a cada 3 cargos de alta responsabilidade nas empresas francesas, sendo que a proporção de homens e mulheres no mercado de trabalho é equivalente. Entre as 40 maiores empresas do país, nenhuma francesa ocupa o cargo mais alto.

Divisão de tarefas

Nas famílias francesas, a realidade não é diferente. De acordo com uma pesquisa do Instituto de Estatística e Estudos Econômicos (Insee), as mulheres são responsáveis por 80% das tarefas domésticas. Com a chegada dos filhos, de acordo com um estudo de 2009 do Instituto francês dos Estudos Demográficos (Ined) são elas que se afastam do mercado de trabalho: 25% delas depois do primeiro bebê, 32% depois do segundo.

A porta-voz do Coletivo Nacional dos Direitos das Mulheres, Suzy Rojtman, lembra que, além disso, há toda uma cultura de obrigações implícitas à mulher. "Quando o filho de um casal fica doente, nós achamos normal que a mãe deixe de ir ao trabalho para cuidar da criança. É muito menos convencional que seja o homem, ou seja, o pai que falte o trabalho para levar o filho ao médico, por exemplo."

Suzy Rojtman cobra medidas sólidas do governo pela igualdade entre mulheres e homens, entre elas, o restabelecimento do ministério dos Direitos das Mulheres, que tornou-se uma secretaria do Estado quando Manuel Valls assumiu o cargo de primeiro-ministro. "Percebemos que os esforços políticos pela igualdades entre homens e mulheres diminuíram", lamenta.

A militante reclama que a lei adotada em 4 de agosto de 2014 sobre a igualdade entre sexos raramente é aplicada nas empresas francesas. "Com a adoção da lei, ogoverno deu sua missão por cumprida. É preciso resolver o problema pela raiz e para isso é necessário que haja um verdadeiro empenho político", protesta.

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