Reportagem

Prisão de Vaccari não prejudica PT ou Dilma Rousseff, dizem especialistas

Áudio 05:11
O tesoureiro e o secretário nacional de Finanças do PT, João Vaccari Neto.
O tesoureiro e o secretário nacional de Finanças do PT, João Vaccari Neto. Marcelo Camargo/ Agência Brasil

Um dia depois da prisão do tesoureiro e secretário nacional de Finanças do PT, João Vaccari Neto, noticiada pela imprensa em todo o mundo, a mídia questiona até onde esse novo capítulo da operação Lava Jato pode prejudicar a presidente brasileira Dilma Rousseff e o Partido dos Trabalhadores (PT). Especialistas ouvidos pela RFI descartam que o episódio possa ter graves consequências para o PT ou que reforce o movimento da oposição pelo impeachment de Dilma.

Publicidade

Detido pela Polícia Federal em São Paulo e transferido para Curitiba, Vaccari é suspeito de ter recebido propina em esquema de corrupção que desviou recursos da Petrobras. Ele é o segundo tesoureiro do partido preso no governo de Dilma Rousseff: o primeiro foi Delúbio Soares, condenado em 2012 pelo Supremo Tribunal Federal (STF) por envolvimento em outro escândalo, o Mensalão.

A prisão de Vaccari não parece ter surpreendido o PT e nem ter afetado, até o momento, a situação da legenda. Isso porque o partido já está suficientemente enfraquecido, depois de ter colocado importantes integrantes na cadeia durante o Mensalão, enfrentar um novo esquema de corrupção, o Petrolão, além de enfrentar um forte movimento de oposição contra Dilma Rousseff.

É o que diz o diretor do King's Brazil Institute, Anthony Pereira, no King’s College de Londres. Para ele, as investigações de integrantes do Congresso de diversos partidos no Petrolão inibem os opositores do PT. "As consequências da operação Lava Jato podem danificar os interesses da oposição. Para o PSDB, é melhor um governo do PT sangrando do que o PMDB", diz, em relação à base aliada dos trabalhistas.

"Cedo ou tarde, tesoureiros de outros partidos, tão ou mais implicados nos escândalos de corrupção que o PT, poderão ser indiciados também", ressalta o historiador Luiz Felipe de Alencastro, professor emérito da Universidade Paris 4 Sorbonne e da Escola de Economia da Fundação Getúlio Vargas de São Paulo (FGV-SP). Segundo ele, foi essa a questão que levou o principal rival de Dilma Rousseff, Aécio Neves, do PSDB, a se reunir nesta quarta-feira (15) com outros partidos da oposição e rever o movimento pelo impeachment da presidente.

Financiamento dos partidos

Muito além da imagem do PT ou da renúncia de Dilma, a principal questão, de acordo com Alencastro, é a urgência da criação de uma lesgislação mais coerente sobre o financiamento dos partidos. "Afinal, se a questão do financiamento da campanha eleitoral da presidente Dilma for contestada, isso vai derrubar também o vice-presidente, Michel Temer, do PMDB, que foi candidato junto com ela."

O co-diretor do Centro de Pesquisas sobre o Brasil da Escola de Altos Estudos em Ciências Sociais de Paris (EHESS), Jean Hébrard, também acredita que a prisão de Vaccari não interfere na imagem já desgastada do PT: " a legenda é sólida e já sobreviveu ao Mensalão, por exemplo".

Incontestável, para Hébrard, é que a política brasileira é a grande prejudicada com todos os escândalos de corrupção. "A questão não é recuperar a imagem do PT, mas de todo o sistema político brasileiro. O PT não está sozinho nesses escândalos : PSDB, PMDB não são inocentes", avalia, sublinhando a urgência de uma reforma política no Brasil.

Detenção  "injustificada"

Procurados pela reportagem da RFI, nenhum representante do PT aceitou falar sobre o assunto. A única declaração oficial sobre a prisão de Vaccari é uma nota publicada no site do partido, assinada pelo presidente nacional do PT, Rui Falcão, que considera a detenção "injustificada" e reafirma confiança na inocência do tesoureiro.

Também de acordo com a nota, Vaccari solicitou seu afastamento da Secretaria de Finanças e Planejamento do PT. E seus advogados estão apresentando um pedido de habeas corpus "para que sua liberdade ocorra no prazo mais curto possível", de acordo com o documento.

NewsletterReceba a newsletter diária RFI: noticiários, reportagens, entrevistas, análises, perfis, emissões, programas.