Linha Direta

Ataque das FARC desestabiliza acordos de paz em Havana

Áudio 04:05
Da esquerda para a direita, o representante das Farc nas negociações em Havana, Iván Márquez, o ex-secretário-geral da ONU, Kofi Annan, e o negociador do governo colombiano, Humberto de la Calle, em 27 de fevereiro de 2015.
Da esquerda para a direita, o representante das Farc nas negociações em Havana, Iván Márquez, o ex-secretário-geral da ONU, Kofi Annan, e o negociador do governo colombiano, Humberto de la Calle, em 27 de fevereiro de 2015. REUTERS

Os acordos de paz com as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc) mais uma vez foram prejudicados por um ataque de guerrilheiros contra uma base militar, nesta última terça-feira (14). Onze membros do exército foram mortos e 20 ficaram feridos, além da decisão do presidente Juan Manuel Santos de reiniciar os bombardeios contra acampamentos da guerrilha.

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Mariana Clini Diana, correspondente da RFI Brasil em Bogotá

Apesar de esta não ser a pior crise do atual diálogo de paz com a guerrilha, o ataque significou um retrocesso em relação à diminuição do conflito armado no país. O enfrentamento significou uma quebra do cessar-fogo unilateral que vinha sendo executado por esta guerrilha desde dezembro de 2014, apesar de que o grupo não manifestou que irá romper este acordo efetivamente.

Desde que se iniciaram os diálogos de paz, em setembro de 2012, este foi o ataque que resultou no maior número de mortos. Segundo analistas, a consequência disso custou o apoio cidadão à guerrilha, que havia crescido depois que declararam cessar-fogo unilateral. E também demonstrou que existe uma incoerência de informações entre os líderes que estão na mesa de negociação em Cuba com os guerrilheiros em combate na Colômbia.

Quando as FARC declararam um cessar-fogo unilateral por tempo indefinido, uma das condições impostas pela guerrilha era que o grupo somente atacaria se sofresse algum tipo de confrontação por parte do exército. Segundo o grupo insurgente, durante este período de cessar-fogo unilateral, outros enfrentamentos iniciados pelo exército colombiano já haviam ocorrido. E este foi o principal argumento utilizado pela guerrilha para romper a trégua.

Posição do Estado colombiano contra as Farc

O presidente Juan Manuel Santos, em coletiva de imprensa nessa quarta-feira (15), afirmou que o ataque foi proposital, o que significou um rompimento do cessar-fogo unilateral prometido pela guerrilha. Como reação, Santos ordenou reiniciar os bombardeios contra os acampamentos das Farc, atividade que havia suspendido desde o último mês de março, como demonstração de cooperação para a diminuição do conflito. Além disso, o presidente colombiano afirmou que não se sente pressionado para tomar uma decisão de cessar-fogo bilateral. E enfatizou sobre a “necessidade de acelerar as negociações para pôr um fim à guerra colombiana”.

O fiscal geral da Colômbia, Luis Eduardo Montealegre, declarou que o ataque violou regras do Direito Internacional Humanitário, que regula a conduta das partes quando existe um conflito armado. Por este motivo, Montealegre ressaltou que o ocorrido foi um crime de guerra e que fará as investigações necessárias para capturar os responsáveis.

As Farc, em resposta ao fiscal Montealegre, negam que tenham violado leis do Direito Internacional Humanitário. O guerrilheiro de codinome Pablo Catatumbo afirmou, em Havana, que a guerrilha está disposta a debater sobre as regras que devem servir à regulação do conflito armado. Lembrando que desde o início dos diálogos de paz, foi decidido fazer as negociações em meio ao conflito que vive o país há mais de 50 anos.
Catatumbo também reforçou que mais enfrentamentos vão acontecer, referindo-se a que o governo colombiano se nega a estabelecer um cessar-fogo bilateral no momento.

Conquistas dos acordos em Havana

Entre os compromissos estabelecidos pelas Farc até o momento podemos destacar a finalização do recrutamento de menores de 17 anos, além de outros períodos de cessar-fogo em épocas de natal e ano novo, e nas eleições presidenciais, em maio de 2014. O último cessar-fogo foi estabelecido em dezembro de 2014 por tempo indeterminado.

Por parte do Estado colombiano, Santos havia prometido diminuir os ataques contra a guerrilha, e também de não bombardear acampamentos das Farc, decisão que acaba de romper com os últimos fatos ocorridos. Além disso, podemos destacar que o governo da Colômbia e as Farc iniciaram um processo de eliminação de minas terrestres no território colombiano. Decisão que, felizmente, não foi afetada com a atual crise.

O ataque

O ataque ocorreu em um conjunto poliesportivo, onde militares estavam acampados, no município de Buenos Aires, departamento de Cauca, sudoeste da Colômbia. Esta é considerada uma zona estratégica por sua saída ao Oceano Pacífico e também pela mineração ilegal. Por este motivo, historicamente é comum a presença de grupos ilegais na região, entre eles as Farc.

Segundo fontes do exército, por volta das 23hs do dia 14 de abril, membros das Farc atacaram o acampamento militar com granadas e tiros de fuzil. Para as Farc, os militares chegaram à região para armar um ataque contra eles. Porém para o exército, eles estavam apenas “desenvolvendo operações de controle territorial para garantir a segurança da população civil”. 

 

 

 

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