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Processo na Europa: internautas têm alternativas, mas preferem usar Google

Áudio 05:09
Yahoo! é um dos concorrentes no mercado de buscadores na internet, mas Google acabou conquistando a grande maioria dos internautas.
Yahoo! é um dos concorrentes no mercado de buscadores na internet, mas Google acabou conquistando a grande maioria dos internautas. REUTERS/Pawel Kopczynski

O Google está na mira da Comissão Europeia, que abriu um processo por suspeita de violação das regras de concorrência no comércio na internet. A líder mundial de buscas é suspeita de privilegiar os resultados ligados ao próprio Google. As alternativas à gigante americana existem – porém acabam abafadas pelos próprios usuários, que tendem a preferir sempre as mesmas ferramentas de pesquisa.

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A constatação foi feita por especialistas em economia digital ouvidos pela RFI Brasil. Isso acontece porque, quanto mais usuários uma plataforma de busca tiver, melhor será a sua performance.

“O algoritmo associado aos buscadores melhora de acordo com o número de pesquisas que são feitas a cada dia. Há uma análise da quantidade de cliques para cada palavra-chave, e a partir deles, a ordem de apresentação dos resultados pode ser modificada. E com os dados e os cliques de cada usuário, os resultados serão personalizados”, explica o pesquisador Thierry Pénard, da Universidade de Rennes 1. “A força do Google é que, a partir do momento em que há muitos usuários, você tem muito mais dados e, com eles, você melhora ainda mais o algoritmo, tornando-o mais eficiente.”

Concentração do mercado

Na Europa, o Google concentra 92% do mercado, um número que chega a 96% no Brasil. As duas principais concorrentes mundiais, os também americanos Bing e Yahoo!, conseguem abocanhar mais clientes nos Estados Unidos, onde o Google detém 75% dos usuários.

Em poucos países do mundo esse índice é inferior. É o caso da Rússia, onde o buscador Yandex tem 40% da clientela, contra 50% para o site americano.

“Nos mercados digitais, existe aquilo que chamamos de winner takes all: os internautas tem tendência a irem sempre nas mesmas plataformas e usar os mesmos aplicativos, porque eles geram um efeito em rede positivo para o usuário”, afirma Pénard.

Riscos para a hegemonia

Apesar da liderança incontestável, alguns fatores podem ameaçar a predominância do Google. Um dos riscos é o de que, na medida em que os usuários tomarem consciência de que os resultados das buscas são manipulados para favorecer a própria empresa, acabem procurando outras formas de chegar às informações.

Gil Giardelli, professor da ESPM-SP e especialista em cultura digital, observa que a confiança é um fator fundamental para o sucesso de um site ou aplicativo. “Na verdade, o que o Google vende não é buscador: é reputação. E se os consumidores começarem a achar que estão sendo levados demais para um único caminho, sempre para os fornecedores, as três primeiras páginas sendo só de quem anuncia no Google, você começa a mexer com a principal moeda do século 21: a reputação.”

Aumento do uso de aplicativos

Outro fator que pode pesar sobre a hegemonia é que, cada vez mais, as pessoas preferem fazer determinadas pesquisas diretamente em um aplicativo especializado, em vez de procurar em um buscador, no qual os resultados podem se dispersar. Essa tendência se reforça com o aumento do uso dos smartphones, cujas vendas já superam a de computadores.

“Quando as pessoas mudam de comportamento, elas tendem a não utilizar as tecnologias do passado. Apesar de estar no apogeu e ainda crescer nos últimos anos, talvez o Google esteja começando a entrar no seu declínio, se não desenvolver o conceito do mobile first”, adverte. “Os concorrentes dele estão investindo muito nisso. O Bing, por exemplo, já é muito melhor do que o Google para as pesquisas em mobile.”

Europa atrasada

O consultor em marketing digital Emmanuel Vivier, fundador do HUB Institute, ressalta que o processo movido pela Comissão Europeia contra o Google é a síntese do atraso tecnológico do continente em relação aos Estados Unidos. As poucas companhias europeias que existem são pequenas e têm dificuldades em se expandir no exterior, a exemplo da plataforma de vídeos Daily Motion.

“O sucesso faz com que, atualmente, eles tenham uma posição dominante no mercado, mas também é a confissão de um fracasso da Europa em relação ao fato de que ela não consegue mais fazer uma plataforma que se garanta. Nós não conseguimos ter um sistema como o Sillicon Valley ou financiar pesos-pesados dessa área digital”, lamenta. “A bola da vez é o Google, mas se pensamos na Apple, na Amazon, no Facebook ou qualquer outra plataforma de sucesso, vemos que os europeus não têm mais nenhuma liderança neste setor.”

A investigação por violação nas regras da concorrência na Europa pelo Google já dura cinco anos. A empresa terá 10 semanas para apresentar a sua defesa.
 

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