Europeus também naufragam ao não solucionar crise da imigração, acusa a imprensa

Capa dos jornais franceses La Croix, Libération e Le Figaro desta segunda-feira, 20 de abril de 2015
Capa dos jornais franceses La Croix, Libération e Le Figaro desta segunda-feira, 20 de abril de 2015

Os jornais desta segunda-feira (20) destacam em manchete o naufrágio de uma embarcação no mar Mediterrâneo que pode ter deixado mais de 700 imigrantes mortos, no fim de semana, na costa da Líbia. A imprensa francesa cobra uma reação das autoridades europeias diante dessa tragédia ou "massacre", como definiu o chefe do governo italiano, Matteo Renzi.

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Não se trata de um naufrágio de imigrantes, é também o naufrágio dos europeus, escreve em seu editorial o diário conservador Le Figaro. Em um ano e meio, 5.500 pessoas morreram no mar Mediterrâneo tentando chegar à Europa, um número que pode ser comparado ao de vítimas de uma guerra nas fronteiras do continente, salienta o jornal.

Em dois anos, com o agravamento dos conflitos no Oriente Médio, principalmente na Síria e no Iraque, o número de candidatos à imigração explodiu: de 2013 para 2014, as autoridades registraram um salto de 80% nas travessias marítimas. No primeiro trimestre deste ano, o aumento é de 150% em relação ao mesmo período no ano passado.

O triste nessa história é que as vítimas estão em todo lugar, destaca Le Figaro: nos países de onde elas fogem, nos países onde elas contatam as redes de tráfico de clandestinos e onde elas desembarcam, como na Itália, que não dispõe dos meios materiais e humanos para acolher um fluxo contínuo de imigrantes. Le Figaro considera que a única maneira de resolver esse grave problema é "os europeus pedirem um mandado da ONU para enviar policiais à costa da Líbia e desmantelar as redes de crime organizado que exploram os imigrantes". Depois dessa etapa, que é urgente na avaliação do jornal, os europeus ainda deverão "rever as regras de livre circulação no continente", defende Le Figaro.

Política ambígua

O diário econômico Les Echos fala em "ambiguidades" na política europeia de imigração. Segundo Les Echos, as redes de tráfico exportam imigrantes via Malta, Lampedusa, na Itália, as ilhas gregas e mais recentemente a Turquia. Os candidatos à imigração ou fogem da fome, na África subsaariana, ou de guerras civis, como na Síria, Iraque e Líbia. Dado que esses conflitos estão longe de terminar, as pessoas continuarão a fugir.

Les Echos critica a estratégia europeia que desmantelou no ano passado a operação de resgate dos migrantes chamada Mare Nostrum. O programa foi substituído pela operação Triton, que tem um caráter mais policial do que humanitário. Os europeus apostaram na ideia que, ao não oferecer salvamento, os candidatos à imigração iriam desistir da travessia do Mediterrâneo. Mas os refugiados não têm escolha, lembra o jornal. Eles estão diante da morte nas duas circunstâncias e preferem arriscar, porque alguns conseguem chegar à Europa.

Libération defende Europa protetora

Todos os grandes jornais destacam esse "cemitério" em que se transformou o mar Mediterrâneo. A manchete do Libération é o "mar da morte". O editorial desse jornal de esquerda, humanista, acusa as autoridades europeias de "letargia culpada".

Libération defende uma "Europa protetora" e não uma "Europa fortaleza", e considera que, apontando uma solução a esse problema, que é internacional − a imigração também afeta os Estados Unidos e a América Latina −, a Europa cresceria politicamente. Libération acha que os europeus deveriam cobrar dos países ricos do Oriente Médio e dos Estados Unidos, que incentivaram vários conflitos, maior responsabilidade na solução da imigração de massa.

Traficantes exploram miséria humana

O diárioLe Parisien chama a atenção para o inferno que representa a travessia do Mediterrâneo para os imigrantes. Também muito indignado com a dimensão humanitária da imigração clandestina, Le Parisien cobra uma atitude das autoridades "antes que os europeus percam a humanidade de vez". As imagens dos jovens africanos, muitos deles adolescentes, viajando sozinhos, sem pai nem mãe, e também famílias sírias e iraquianas que desembarcam exaustas nos portos italianos, são comoventes. "São seres humanos", exclama Le Parisien.

O jornal questiona até quando os europeus vão se contentar em resgatar corpos afogados. "Os traficantes que enriquecem explorando a miséria dos desesperados da Líbia e de outros países são criminosos; a Europa deve lutar rapidamente contra eles", escreve o diário.

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