O Mundo Agora

A Europa não pode lavar as mãos diante da montanha de cadáveres no Mediterrâneo

Áudio 05:21
Após o naufragio de um barco com 700 pessoas a bordo, 28 foram resgatadas com vida por um navio cargueiro.
Após o naufragio de um barco com 700 pessoas a bordo, 28 foram resgatadas com vida por um navio cargueiro. REUTERS/Alessandro Bianchi

Três naufrágios em uma semana e mais de mil mortos: o Mediterrâneo está se transformando numa imensa vala comum para emigrantes africanos. Só no ano passado, a marinha italiana sozinha resgatou mais de 120.000 pessoas que tentavam cruzar o mar para a “terra prometida” européia.

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E esse ano, centenas de milhares vão continuar tentando, pagando o absurdo de 5.000 dólares para traficantes de carne humana que enchem embarcações caindo aos pedaços e não hesitam em atirar os emigrantes n’água para escapar das patrulhas oficiais. A lei européia decreta que são os Estados aonde chegam os refugiados que têm obrigação de acolhê-los e tratar os pedidos de asilo.

Terrível hipocrisia: vindos das costas africanas, os migrantes sempre batem primeiro nos países mais próximos como a Itália ou a Grécia. Hoje, o presidente italiano Matteo Renzi está botando a boca no trombone. Não dá mais para assumir toda essa responsabilidade enquanto os outros membros da União Européia ficam assistindo de camarote.

Renzi está coberto de razão. Em 2013, a Itália havia montado uma operação marítima de salvamento, com mais de dez navios de guerra e 900 homens. Durante um ano, a operação Mare Nostrum – totalmente financiada pelos italianos – salvou um sem número de náufragos. Mas a Europa não queria saber de gastar dinheiro e resolveu driblar o problema com uma operação alternativa chamada Triton, três vezes mais barata e modesta... e infinitamente menos eficiente. Resultado: milhares de mortos e uma situação cada dia mais ingovernável.

Na verdade, não há solução milagrosa. Calcula-se que quase meio milhão de candidatos ao exílio vindos da África subsaariana se aglutinam nas costas da Líbia, sem falar nos milhares dormindo ao relento nas praias marroquinas à espera de uma oportunidade para passar do outro lado. E esse fluxo só vai aumentar, visto o derretimento econômico e a multiplicação de conflitos sangrentos em vários países africanos e no Oriente Médio. Para populações inteiras não há outra saída senão fugir para os Estados vizinhos, que não sabem mais como acolher milhões de refugiados, ou sair à procura de trabalho, paz e liberdade nas plaças européias.

Grupo Estado Islâmico se aproveita da situação

A Europa não pode lavar as mãos diante da montanha de cadáveres que estão se acumulando. E também não tem condições – nem políticas nem morais – de sair afundando embarcações e matando emigrantes para impedir que eles acostem. Também não pode devolvê-los aos países de origem, muitas vezes difícil de ser estabelecida e onde não existem mais governos ou autoridades dignas deste nome.

O sonho europeu é que os países da África do Norte aceitem o trabalho sujo de policiar e impedir a travessia dos migrantes. Se os três países do Magrebe tentam fazer alguma coisa nesse sentido, na Líbia são outros quinhentos. Hoje, a antiga terra do coronel Gaddafi é um território sem Estado, em guerra civil permanente de todos contra todos. Não há ninguém para assumir esse tipo de responsabilidade.

Pior ainda, os terroristas do dito Estado Islâmico presentes na Líbia já estão anunciando que vão aproveitar essa migração de massa para infiltrar combatentes na Europa, e favorecer esse fluxo para desestabilizar o continente europeu. Daí a proposta italiana de lançar ações militares na Líbia contra as redes de traficantes para tentar estabilizar o país. Só que nenhum governo europeu tem mais apetite para isso.

Abrir “corredores” bem monitorados aos emigrantes

Especialistas das questões migratórias, que não cansam de denunciar o fracasso da política das fronteiras fechadas, vêm propondo outra solução. Abrir poucos “corredores”, mas bem monitorados, de livre acesso aos emigrantes, espalhando as responsabilidades da acolhida entre todos membros da União Européia, e portanto acabando com o lucro dos traficantes. O raciocínio é que os dramas atuais demonstram que nenhuma política repressiva vai impedir a chegada massiva de imigrantes. E que é melhor tentar canalizá-la e controlá-la.

Mas políticos e governos, confrontados com manifestações de xenofobia cada dia mais perigosas e poderosas, acham que tudo isso é idealismo de professores irresponsáveis. Resultado: a Europa está mesmo é sem nenhuma idéia de como enfrentar o problema. Enquanto isso, centenas de milhares de seres humanos arriscam a vida para morrer na praia de uma das regiões mais civilizadas do planeta.

Alfredo Valladão, do Instituto de Estudos Políticos de Paris, escreve às terças-feiras para a RFI
 

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