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Apesar do desperdício, levar restos de comida para casa é tabu na França

Áudio 07:29
Para tentar acabar com os preconceitos, start up Take Away criou doggy bags cheias de estilo para convencer os franceses a levarem restos para casa.
Para tentar acabar com os preconceitos, start up Take Away criou doggy bags cheias de estilo para convencer os franceses a levarem restos para casa. takeaway

Em um país que teve a gastronomia reconhecida como Patrimônio Imaterial da Humanidade pela Unesco, pedir para o garçom embalar a comida para levar para casa é um verdadeiro tabu. A proposta, no entanto, está num projeto de lei para diminuir o desperdício alimentar na França.

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A prática é comum nos países anglos-saxões, onde muitas vezes o garçom já traz automaticamente a comida embalada de volta para a mesa, pronta para ser reaproveitada pelo cliente. A marmitinha é conhecida como doggy bag, embora nem sempre os restos de comida sejam para alimentar os animais de estimação.

Mas na terra do repas gastronomique, não vai ser fácil convencer os franceses de que pedir para levar as sobras não deve ser motivo de vergonha – pelo contrário, demonstra preocupação com o aproveitamento dos alimentos. Em média, 230 gramas de uma refeição feita no restaurante são jogadas fora no país.

Basta dar uma volta nos bistrôs da cidade para verificar que o plano do deputado Guillaume Garot está distante da realidade. O parlamentar quer estimular os estabelecimentos a oferecer a doggy bag.

“Não, aqui não se faz doggy bag. Não se deve embalar os restos”, reage o gerente Gilbert, de um restaurante parisiense. “Estamos num restaurante para comer: se está bom, você termina o seu prato; se não, você deixa o que não gostou. Em 20 anos de profissão, jamais preparei comida para levar.”

No café ao lado, a gerente Valérie também não oferece essa possibilidade aos clientes. Ela destaca que os pratos costumam ficar vazios ao final das refeições. “Servimos produtos frescos e, em geral, eles não pedem para levar. Isso acontece de tempos em tempos e, quase sempre, é um pedido feito por turistas”, garante. “É muito raro que os franceses peçam isso.”

Cara feia do garçom

Nas mesas, os clientes admitem: não ousam fazer o polêmico pedido para os garçons franceses, que já não têm a fama de serem os mais simpáticos do mundo. “É uma questão cultural, está na tradição francesa. Ficamos constrangidos e os garçons não costumam ser abertos a embalar os nossos restos”, observa Mathieu. “Já morei nos Estados Unidos e tinha o hábito de fazer isso lá. Mas aqui na França, tentei uma vez e o garçom se recusou a embalar. Ele disse que isso não se faz aqui.”

Outra cliente, Clémentine, acha que os franceses se preocupam bastante com a apresentação dos pratos – por isso quase nem pensam em pedir para levar as sobras. “Não é muito apetitoso. A comida perde esse lado, que é importante para a gente, na gastronomia”, explica. “Tem todo um lado estético que a gente perde se leva a comida para casa.”

Mudança possível

Apesar de a prática ser incomum, os franceses se mostram abertos a modificar os hábitos, se as mudanças também acontecerem nos restaurantes. Percebendo a resistência dos estabelecimentos, uma start up de Lyon criou a TakeAway, especializada em produzir embalagens personalizadas e cheias de estilo para os clientes carregarem os restos da comida. Chefs famosos, como Grégory Cuilleron, já adotaram a ideia, em nome da luta contra o despedício.

“Eu até posso mudar de hábito, se o garçom me propuser. Acho que isso poderia modificar a opinião de bastante gente”, avalia Samantha, sentada em uma famosa brasserie da capital. “Conheço um restaurante que sempre propõe. É bacana porque sei que eu se não comer todo o prato, poderei levar para casa.”

Clémentine admite que não tem esse costume, mas poderia mudar de postura. “Acho que são hábitos que a gente pode criar, tanto por questões econômicas quanto ecológicas, contra o desperdício. Só não sei se vamos conseguir”, constata.

O combate ao desperdício alimentar tem um caminho longo pela frente: um francês joga fora em média 20 quilos de comida por ano, segundo o Ministério da Agricultura. O governo quer diminuir esse número pela metade até 2025.

 

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