Imprensa francesa analisa a questão racial nos EUA após confrontos em Baltimore

Capa do Libération traz foto dos confrontos e a manchete "Baltimore, a fratura negra"
Capa do Libération traz foto dos confrontos e a manchete "Baltimore, a fratura negra" Reprodução

Os jornais franceses analisam nas suas edições desta quarta-feira (29) os violentos confrontos entre militantes e policiais na cidade norte-americana de Baltimore, depois o enterro do jovem negro Freddie Gray. Ele morreu devido a uma fratura cervical após ser preso pela polícia da cidade.  

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O jornal Libération entrevistou o professor Pap Ndiaye, da Universidade Sciences-Po Paris, para analisar a situação. Segundo ele, depois dos eventos de Ferguson, onde também houve distúrbios após o assassinato de outro jovem negro pela polícia, há um efeito de acúmulo que faz com que os negros protestem contra uma situação local, mas também nacional.

Ele diz que as novas violências policiais contra negros se acumulam e parecem cada vez mais intoleráveis. O professor afirma que o racismo institucional da polícia norte-americana exige uma política nacional, um diálogo com a população e o abandono da política de repressão marcada pela militarização das forças de ordem e por um sistema judiciário implacável com as minorias.

Obama se recusou a enfrentar o problema

O professor afirma que o presidente norte-americano Barack Obama, o primeiro afro-americano a assumir o cargo nos Estados Unidos, se recusou a enfrentar o problema gravíssimo e antigo das relações entre as forças de ordem e os negros do país. Ele critica a decisão de Obama de não ter ido a Ferguson em 2014, quando explodiram os confrontos após a morte do jovem Michael Brown pela polícia e diz que o presidente paga hoje o preço pelo seu distanciamento estratégico do mundo negro e das questões que preocupam essa população.

Para finalizar, o professor da Sciences-Po avalia que, de maneira geral, é a questão das desigualdades crescentes entre brancos e negros que Obama jamais encarou de frente. Ele afirma que essas desigualdades têm um componente social, mas também racial, que deve ser abordado.

My Brother's Keeper

O jornal Le Figaro destaca que os confrontos são um forte golpe para o projeto "My Brother's Keeper", lançado por Obama no ano passado e que visa estreitar os laços entre as minorias e as forças de ordem, contando com a colaboração de membros das comunidades e das prefeituras.

O conselheiro municipal de Baltimore, Brandon Scott, conta, em entrevista ao jornal, que os distúrbios refletem um problema antigo e espinhoso, o dos jovens negros norte-americanos em zonas urbanas. Para ele, os confrontos são o resultado de décadas de desconfiança e de infortúnio que levam à toda essa violência. Scott diz que não há nenhum sentido em queimar a cidade, como fizeram os manifestantes, mas é essa a consequência da grave revolta da comunidade negra do país.

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